Morre Jeremy Thomas, o produtor que levou o cinema autoral ao Oscar com Bertolucci

Morre Jeremy Thomas, produtor premiado que levou 'The Last Emperor' ao Oscar e marcou meio século do cinema autoral internacional.

Morre Jeremy Thomas, o produtor que levou o cinema autoral ao Oscar com Bertolucci

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Morre Jeremy Thomas, o produtor que levou o cinema autoral ao Oscar com Bertolucci

Por Chiara Lombardi — O mundo do cinema perde uma das suas figuras mais inquietas e influentes: Jeremy Thomas, produtor independente britânico, morreu aos 77 anos. Segundo comunicado reproduzido pela Variety, Thomas faleceu serenamente em sua residência no Oxfordshire na noite de 11 de setembro, cercado por familiares e entes queridos.

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Nascido em Londres em 1949, Jeremy Thomas ingressou na indústria logo após deixar a escola, começando por colaborar na montagem de obras que já deixavam sinais do cinema como espelho social, como The Harder They Come e Family Life. Em 1973, cuidou do corte do curta televisivo de Ken Loach, A Misfortune, sinalizando um caminho pautado por escolhas arriscadas e uma sensibilidade para cineastas emergentes.

Fundador da Recorded Picture Company e cofundador da Hanway Films, Thomas teve uma carreira que atravessou mais de meio século: são mais de 80 longas-metragens produzidos, muitos deles obras de autor que desafiaram o mercado e redesenharam o mapa do cinema internacional. Essa trajetória o colocou tanto ao lado de nomes consagrados quanto ao suporte decisivo a talentos ousados.

O ponto alto de reconhecimento institucional veio em 1988, quando Thomas conquistou o Oscar de Melhor Filme com The Last Emperor, de Bernardo Bertolucci — um trabalho que rendeu nove estatuetas e fixou uma parceria profícua entre produtor e diretor. Ao todo, a colaboração com Bertolucci resultou em cinco filmes ao longo de 17 anos, um vínculo que exemplifica como produtor e autor podem moldar, em conjunto, um legado estético.

Festivais como a Mostra de Veneza e a Biennale já manifestaram condolências, lembrando que os filmes produzidos por Thomas nos últimos 50 anos compõem um verdadeiro roteiro oculto do cinema de autor contemporâneo. A Biennale ressaltou títulos recentes do produtor, como Bucking Fastard de Werner Herzog, presente na competição deste ano, e sua participação no documentário de Luca Guadagnino, Joie de Vivre.

Entre as obras emblemáticas que passaram por festivais, a relação com Veneza inclui The Dreamers (2003) de Bertolucci e Terra Promessa (2004) de Amos Gitai. A lista de filmes produzidos por Jeremy Thomas percorre gêneros e geografias: o primeiro longa de Jonathan Glazer, Sexy Beast, Crash de David Cronenberg, A Dangerous Method de Christopher Hampton e Merry Christmas Mr. Lawrence (Furyo) de Nagisa Oshima são exemplos de uma filmografia que marcou a sensibilidade dos espectadores.

Ao longo de décadas, Thomas trabalhou repetidamente com diretores como Jim Jarmusch, Stephen Frears, Takashi Miike, Matteo Garrone, Terry Gilliam, Werner Herzog, Wim Wenders e muitos outros. Em 2006, recebeu o European Film Award pelo contributo europeu de excelência ao cinema mundial. Em 2021, foi homenageado em Cannes pelo documentário de Mark Cousins, The Storms of Jeremy Thomas, que mapeia suas viagens aos festivais e o ofício do produtor.

Mais do que um profissional dos bastidores, Jeremy Thomas foi um artífice do que poderíamos chamar de cenário de transformação — aquele produtor que aceita o risco como condição estética e que, por meio de escolhas aparentemente invisíveis, altera a memória cultural coletiva. Sua partida deixa um vazio na produção autoral, mas também um arquivo vivo de filmes que continuam a atuar como espelho do nosso tempo.

Expressões de pesar chegam de instituições, colegas e cineastas, todos conscientes de que a obra de Jeremy Thomas continuará a inspirar novos roteiros, novos olhares e a reafirmar o papel do produtor como curador da coragem cinematográfica.

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