Morre Carla Tatò, atriz radical do teatro de pesquisa italiano
Morre Carla Tatò, 79, atriz fundamental do teatro de pesquisa italiano; legado entre cena, cinema e projetos itinerantes como o Camion.
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Morre Carla Tatò, atriz radical do teatro de pesquisa italiano
Carla Tatò, uma das presenças mais originais e radicais do teatro de pesquisa italiano, faleceu aos 79 anos. Sua trajetória — que atravessou cena, cinema, televisão e experimentações interdisciplinares — deixa um legado que ressoa como um verdadeiro espelho do nosso tempo: peças que foram também um mapa afetivo e político dos territórios onde atuou.
A camera ardente será instalada na segunda-feira, 17 de agosto, das 8h30 às 10h, no policlinico Umberto I de Roma. O corpo será cremado e, posteriormente, será definida a data das exéquias em Genazzano, a cidade onde vivia há anos. Em setembro, está previsto em Roma um ato público em sua memória, um momento para reencontrar o fio coletivo de sua obra.
Nascida em Roma a 3 de janeiro de 1947, filha de Antonio Tatò — dirigente do Partito Comunista Italiano e colaborador próximo de Enrico Berlinguer — e de Erminia Romano, uma das primeiras regentes mulheres na Itália, Carla construiu uma biografia artística fora dos clichês do espetáculo. Formada em cenografia na Accademia di Belle Arti de Roma, seu percurso profissional começou nos anos 1960 quando foi chamada por Carmelo Bene. Em 1967 participou de produções marcantes como "Amleto o le conseguenze della pietà filiale" e "Salvatore Giuliano, vita di una rosa rossa".
Colaborou com figuras centrais do teatro italiano do século XX — nomes como Roberto Guicciardini, Franco Parenti, Gianfranco De Bosio e Maurizio Scaparro —, mas foi longe dos circuitos tradicionais que encontrou seu horizonte expressivo. Em 1970, ao lado de Dacia Maraini, fundou o Teatro di Quartiere em Centocelle; no ano seguinte integrou a formação do Teatro di Strada com artistas como Gian Maria Volonté, Flavio Bucci e Antonio Salines. Nessa temporada, a experimentação estética convergia com engajamento civil: o teatro como intervenção e ética de comunidade.
Paralelamente, transitou pelo cinema, atuando em títulos como "Sbatti il mostro in prima pagina" de Marco Bellocchio, "Vogliamo i colonnelli" de Mario Monicelli e "Le cinque giornate" de Dario Argento, além de participar do "Orlando furioso" televisivo dirigido por Luca Ronconi. Ainda assim, sua presença permaneceu intensamente ligada à cena, onde seu trabalho se desdobrava em investigação do corpo, da palavra, da música e das artes visuais em diálogo com o território.
Em 1973, em estúdios radiofônicos em Turim, aconteceu o encontro decisivo com o diretor Carlo Quartucci. Nasceu aí uma parceria artística e afetiva que durou mais de quatro décadas, terminando apenas com a morte de Quartucci em 2019. Juntos, mergulharam na experiência do Camion, projeto itinerante que levou o teatro às periferias, praças e pequenas localidades — um teatro móvel que reconfigurou o público e o espaço cênico.
Seu trabalho com personagens como Nora Helmer, de Ibsen, foi retomado e reelaborado ao longo dos anos, mostrando uma prática que não se contentava em reproduzir textos, mas em reescrevê-los no encontro com comunidades e memórias locais. Ao longo de mais de cinquenta anos, Carla construiu uma obra que é também um reframe da realidade: não mero espelho, mas lente capaz de ampliar contradições e afetos.
Carla Tatò deixa, além de peças e filmes, o exemplo de uma ética performativa: o teatro como compromisso com a língua, o corpo e o lugar. A sua morte marca a perda de uma artista que entendeu o palco como território de transformação — e que, por isso, continuará a provocar reflexões sobre quem somos e como contamos nossas histórias coletivas.