Houthi: a milícia silenciosa que redesenha a geopolítica do Mar Vermelho
Quem são os Houthi e como essa milícia do Iêmen ameaça o Mar Vermelho e rotas energéticas globais com ataques e bloqueios.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Houthi: a milícia silenciosa que redesenha a geopolítica do Mar Vermelho
Por Marco Severini — Em poucos dias, um movimento que por muito tempo operou à sombra das grandes potências impôs um novo equilíbrio no tabuleiro estratégico do extremo sul do Mar Vermelho. Os Houthi, também conhecidos como Ansar Allah, protagonizaram um movimento decisivo sobre o Estreito de Bab el-Mandeb, convertendo um corredor marítimo tradicional em ponto de estrangulamento capaz de perturbar rotas de petróleo e comércio mundial.
Silenciosos nas intermediações diplomáticas e, ainda assim, tenazes nas ações militares, os Houthi evoluíram de uma força regional para um ator com capacidade de impacto global. Partindo de sua rocha de Saada, no norte do Iêmen, e após consolidarem o controle de Sanaa, estenderam a presença ao longo de toda a costa iemenita do Mar Vermelho. A recente ofensiva relâmpago que danificou seriamente o oleoduto em Yanbu — e os consequentes cortes na oferta petrolífera que Riad estima em cerca de 4% a nível global — demonstraram que a milícia dispõe de meios para transformar infraestruturas estratégicas em alvos com efeito sistêmico.
Para entender o movimento é necessário recuar às suas raízes. Os Houthi são, originalmente, um grupo da minoria zaidita do Iêmen, fundado nos anos 1990 para denunciar discriminações contra essa comunidade. O nome Ansar Allah sintetiza essa vocação: “Partidários de Deus”. O movimento tomou o nome do líder espiritual Badreddine al-Houthi e da linhagem familiar: Hussein, seu filho, morto em 2004 em confrontos com forças do governo, e Abdel Malek al-Houthi, que assumiu a liderança e conduziu a transformação do grupo em uma organização político-militar estruturada.
A trajetória de confrontos é longa e moldou combatentes endurecidos pelos relevos montanhosos do Iêmen. Entre 2004 e 2010, o movimento travou seis guerras contra o governo central e, em 2009-2010, confrontou diretamente forças sauditas ao transpor a fronteira. Em 2011 os Houthi participaram da revolta contra Ali Abdullah Saleh; depois formaram uma aliança tática com ele para derrubar o governo sucessor, culminando na morte de Saleh em 2017. Hoje, controlam áreas de maior densidade populacional, enquanto o governo nominal sustenta territórios geograficamente mais extensos, porém menos povoados.
Militarmente, o movimento possui dezenas de milhares de combatentes e um repertório crescente de mísseis e drones, que o tornaram ameaça direta aos países do Golfo e a Israel — alvo frequente de ataques durante o conflito em Gaza. No campo ideológico e geopolítico, embora exista um alinhamento crescente com o Irã em termos de interesses e fornecimento, os Houthi mantêm autonomia religiosa: diferentemente do Hezbollah libanês, não reconhecem a autoridade máxima da figura do Guia Supremo iraniano, preservando uma identidade própria dentro do eixo xiita regional.
O recente bloqueio e os ataques a embarcações sauditas, reivindicados pelo movimento, indicam que os Houthi buscaram transformar o estreito de Bab el-Mandeb em uma alternativa — e em um instrumento de pressão — face à crise no Estreito de Ormuz. Essa manobra não é apenas tática: constitui um redesenho de fronteiras invisíveis na circulação de energia, com repercussões imediatas sobre os preços do petróleo e a estabilidade das cadeias logísticas.
Em termos de estratégia internacional, temos diante de nós uma força que opera como um bispo em um jogo de xadrez: aparentemente limitada em movimentos, mas capaz de cortes diagonais que desorganizam formações adversárias. A tectônica de poder no Iêmen e no Mar Vermelho demonstra que os alicerces da diplomacia regional permanecem frágeis, e que atores locais, armados de tecnologia assimétrica e de profundos conhecimentos do terreno, podem deslocar equilibrios antes considerados imutáveis.
O desafio para a comunidade internacional é calibrar respostas que não ampliem a conflagração regional nem legitimação militar imediata do grupo, ao mesmo tempo em que se restabeleçam garantias de livre navegação e proteção das infraestruturas críticas. O movimento Houthi é, hoje, um ator que impõe um novo ritmo ao tabuleiro do Mar Vermelho — e cujo cálculo político exigirá paciência, análise histórica e precisão estratégica.

