Perícia conclui: conexão ao Berlin Heart poderia ter salvo o pequeno Domenico após falha no transplante
Perícia de 553 páginas aponta que conexão ao Berlin Heart e falhas no transporte do órgão poderiam ter salvo o menino Domenico após falha de transplante.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Perícia conclui: conexão ao Berlin Heart poderia ter salvo o pequeno Domenico após falha no transplante
Por Giulliano Martini. Apuração in loco, cruzamento de fontes e análise técnica.
Uma perícia especializada de 553 páginas concluiu que o menino Domenico Caliendo, de dois anos e meio, poderia ter sido salvo após o colapso do transplante de coração realizado em 23 de dezembro de 2025 no hospital Monaldi, em Nápoles. O óbito ocorreu em 21 de fevereiro de 2026.
O relatório dos três professores nomeados pelo juiz de garantia Mariano Sorrentino — Biagio Solarino, Ugolino Livi e Ferdinando Luca Lorini — estabelece em termos técnicos e factuais duas causas evitáveis que, somadas, teriam alterado o desfecho: falhas no transporte e conservação do coração do doador, oriundo de Bolzano, e a não adoção do sistema Berlin Heart dentro do prazo de 72 horas após a constatação de dano irreversível ao órgão. Em vez disso, o suporte adotado foi a ECMO (oxigenação extracorpórea por membrana).
Os peritos identificaram que o coração transplantado estava comprometido pelo contato com gelo seco e que, diante desse cenário, a conexão do paciente a uma assistência circulatória extracorpórea mecânica como o Berlin Heart teria sido a opção com maior potencial de sobrevivência. A perícia registra, no entanto, que a tentativa de suporte com ECMO não reverteu o processo e que a morte foi causada por uma insuficiência multiorgânica (Multiple Organ Failure — MOF) correlacionada ao fracasso do enxerto.
Ao mesmo tempo em que apontam caminhos clínicos que poderiam ter modificado a evolução, os peritos isentam os cardiocirurgiões investigados — o chefe de departamento Guido Oppido e a vice Emma Bergonzoni — de censuras por terem realizado a cardiectomia. No exame técnico, o procedimento é considerado conforme às regras da arte em situação de emergência. Sobre a questão muito debatida de ter sido retirada a cardiaca de Domenico antes da chegada ou da abertura do compartimento do coração do doador, a perícia conclui que “não haveria censuras substanciais na conduta dos médicos” e que, por razões técnicas, uma cardiectomia antecipada podia ser executada.
Também figura entre os indiciados a médica Mariangela Addonizio, e o laudo do colegiado que realizou o incidente probatório define as condutas dos profissionais como, de modo geral, “sustancialmente conformes à leges artis”.
Na audiência em que o juiz Mariano Sorrentino marcou as datas para o exame e o contraexame da perícia, a mãe de Domenico, Patrizia Mercolino, acompanhada do marido Antonio Caliendo, afirmou: “Dor, agora há também muita raiva, é inútil negar. A raiva agora prevalece sobre a dor porque a falta de Domenico é inevitável e se sente muito. Mas prometi justiça e está chegando o dia. Devemos ser fortes”. A família exige “verdade” e quer ver os indiciados “nos olhos”.
O laudo técnico abre caminhos claros para o processo judicial: aponta falhas de logística e de manejo do órgão doado, descreve escolhas terapêuticas que teriam alternativas com potencial de reversão e, ao mesmo tempo, preserva a regularidade de atos cirúrgicos realizados sob emergência. A perícia amplia o raio-x do caso, separando fatos brutos de narrativas e fixando elementos que servirão ao contraditório nas próximas fases processuais.
O relatório será submetido ao exame e contraexame em datas definidas pelo juízo, e o caso seguirá para instrução com foco na responsabilidade sobre as etapas de cadeia logística do enxerto e nas decisões clínicas adotadas no pós-operatório.

