Oriana Fallaci: De Bortoli diz que foi profética sobre o Ocidente e hoje “nos daria um sacode”

Ferruccio de Bortoli lembra Oriana Fallaci: profética sobre o Ocidente, sua voz ainda questiona guerra, liberdade e IA. Análise e legado.

Oriana Fallaci: De Bortoli diz que foi profética sobre o Ocidente e hoje “nos daria um sacode”

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Oriana Fallaci: De Bortoli diz que foi profética sobre o Ocidente e hoje “nos daria um sacode”

Por Stella Ferrari — A voz de quem observa o motor da economia e as dinâmicas do poder: vinte anos após a perda da escritora e jornalista italiana, a memória de Oriana Fallaci segue provocando diagnóstico e debate sobre os rumos do Ocidente, a liberdade de expressão e até a relação com a inteligência artificial. Quem traz essa leitura para a pauta é Ferruccio de Bortoli, ex-diretor do Corriere della Sera e presidente da Vidas, que recorda a entrevista de setembro de 2001 em Nova York — cujo texto acabou por dar origem ao livro La Rabbia e l’Orgoglio.

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De Bortoli, que foi ao encontro de Oriana Fallaci em Nova York poucos dias após os acontecimentos que remodelaram o mundo, destaca a imagem que a própria autora escolheu para ilustrar o artigo publicado em 29 de setembro de 2001: a jornalista com as Torres Gêmeas ao fundo. "Era uma fotografia à qual ela era muito apegada", diz ele. Mais do que um retrato, aquela cena funcionava como um painel simbólico do amor complicado que Fallaci nutria pelos Estados Unidos — um sentimento de reconhecimento pelo papel norte-americano como guia do Ocidente, mas também uma cobrança severa sobre sua responsividade ética e política.

Segundo De Bortoli, a obra e a trajetória de Fallaci assumiram um papel profético. "Ela deu um soco no estômago do Ocidente", resume, lembrando que as palavras duras e a escrita incisiva de Fallaci frequentemente despertaram controvérsias e ações judiciais. Ainda assim, para ele, o cerne das críticas não era o racismo: era uma chamada de atenção sobre as falhas de uma civilização que, na visão de Fallaci, havia perdido a calibragem de seus valores básicos diante do fanatismo.

No cenário atual — com guerras regionais, tensões geopolíticas renovadas, o terrorismo e o surgimento de plataformas digitais e inteligência artificial — as perguntas que emergem das páginas de Fallaci permanecem relevantes: o Ocidente mantém o papel de liderança moral e estratégica? Como preservar a liberdade de expressão sem sucumbir a polarizações que corroem o debate público?

Como estrategista econômica, observo essa herança como uma peça de alta performance: a obra de Fallaci funciona como um instrumento de diagnóstico — uma espécie de painel onde se leem os alertas de falha na política, na cultura e na comunicação. Sua escrita direta operava como um turbo que forçava a aceleração das agendas democráticas; ao mesmo tempo, suas contradições e a reação a elas mostram que a calibragem entre discurso e prudência é sempre necessária.

De Bortoli se pergunta, ainda, como seria a reação de Fallaci diante das plataformas sociais e das ferramentas de IA que hoje amplificam vozes e distorcem contextos. "Ela, que gostava de fazer jornalismo de campo, olhando o poder nos olhos, teria sido desconfortável com a virtualidade total do debate? Provavelmente nos daria um sacode", conclui, com a firmeza de quem conhece os códigos e as rupturas do jornalismo contemporâneo.

Em última análise, a lembrança de Oriana Fallaci exige de gestores, estrategistas e formadores de opinião uma revisão das peças do tabuleiro: calibrar políticas, reforçar instituições e manter o motor da democracia em marcha. Se a economia precisa de design de políticas que promovam resiliência, a sociedade precisa hoje de um jornalismo que persista em olhar o poder de frente — atributo que, para De Bortoli, continua sendo o maior legado de Fallaci.

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