Por que o cinema italiano volta aos livros enquanto o cinema israelense mira Gaza

Scherzetto de Martone estreia hoje; Naza, de Abraham e Szor, retrata vítimas de Gaza. Dois rumos do cinema em diálogo com a memória e a urgência política.

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Por que o cinema italiano volta aos livros enquanto o cinema israelense mira Gaza

Assisto a dois movimentos paralelos que descrevem bem o roteiro oculto da sociedade contemporânea: de um lado, o renovado apego do cinema italiano às páginas impressas; do outro, a persistente atenção do cinema israelense ao drama de Gaza. Hoje, nas salas, estreia Scherzetto, de Martone, um filme que se ancora em um protagonista muito jovem para explorar camadas de memória e autoridade — quase como uma câmera que olha o mundo por lentes infantis e, ao mesmo tempo, carregadas de história.

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Ao mesmo tempo, a dupla Abraham e Szor entrega Naza, uma obra que, na linguagem dos relatos contemporâneos, se debruça sobre as chamadas vítimas colaterais. Não é um contraponto simplista: é a confirmação de que o cinema é, antes de tudo, um espelho do nosso tempo e um palco onde se encenam as urgências políticas e humanas que o resto dos meios muitas vezes reduz.

O interesse italiano por adaptações literárias confirma uma tendência de busca por estruturas narrativas já consolidadas — e por personagens que trazem consigo um universo textual. Filmar um livro é também reaprender a ler o presente: os directores vasculham o eco cultural das palavras para traduzi-las em imagens que dialogam com o público contemporâneo. Em Scherzetto, isso se materializa na escolha de um intérprete muito jovem, cujo olhar funciona como catalisador de memórias e contradições sociais — uma escolha que torna o filme, além de entretenimento, um exercício de sondagem do nosso imaginário coletivo.

Já no caso de Naza, vemos o cinema como arquivo emocional de um conflito que não cessa de produzir narrativas. Ao focalizar as vítimas que transitam entre a visibilidade e o esquecimento, Abraham e Szor retomam uma velha função do cinema: nomear o que a geopolítica tenta diluir. É a semiótica do viral aplicada ao drama humano — imagens que se repetem e exigem nova leitura, novo enquadramento, nova escuta.

Esses dois caminhos — o retorno às letras e a persistência temática sobre zonas de conflito — não são mutuamente exclusivos; ao contrário, articulam uma cena europeia (e global) em que o cinema se reinventa como instrumento de memória e como lente crítica. Enquanto o primeiro busca raízes narrativas seguras para interpretar o presente, o segundo insiste em apontar feridas abertas que clamam por testemunho.

Como analista cultural, lembro que o entretenimento nunca é apenas diversão: é diagnóstico. Ver Scherzetto e Naza quase simultaneamente é como assistir dois atos de uma mesma peça sobre quem somos — um espelho do nosso tempo em que literatura e conflito disputam o primeiro plano. No final, a pergunta fica: que histórias escolhemos transformar em filmes, e por quê? Afinal, a seleção do que virar imagem revela mais do que a técnica cinematográfica; revela prioridades culturais, memórias que insistimos em preservar e feridas que, vez por outra, ainda ousamos filmar.

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