De Berlim à África: as 'Casas Russas' redesenham seu eixo geopolítico
Rossotrudnichestvo expande as 'Casas Russas' para a África e Ásia após o fechamento de Berlim, reposicionando a diplomacia cultural russa.
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De Berlim à África: as 'Casas Russas' redesenham seu eixo geopolítico
Uma semana após o fechamento da principal Casa Russa em Berlim — instituição presente há quarenta anos na capital alemã — o organismo russo Rossotrudnichestvo anunciou a assinatura de um acordo para inaugurar onze novos centros homólogos em países africanos, além de unidades na Tailândia e na Armênia. O movimento marca um reposicionamento evidente do investimento cultural e comunicacional de Moscou, em resposta ao agravamento das relações com várias capitais europeias.
Igor Chaika, chefe do Rossotrudnichestvo, afirmou que os novos institutos terão como missão projetar “uma imagem da Rússia moderna, veraz e eficaz”. Na retórica oficial, trata-se de diplomacia cultural: promoção da língua russa, captação de estudantes estrangeiros para universidades russas, organização de exposições e apoio a cidadãos russos no exterior — funções que, em teoria, aproximam-se de modelos consagrados como o Goethe-Institut, o Instituto Cervantes, a Alliance Française ou o British Council.
No entanto, críticos europeus e observadores de segurança apontam para um registro distinto. Para esses analistas, as Casas Russas operam frequentemente como instrumentos de propaganda, influência política e, em certos casos, de recolha de inteligência, mais do que como simples espaços de intercâmbio cultural. Esse debate ganha intensidade no contexto da invasão em larga escala da Rússia à Ucrânia e do consequente endurecimento das respostas ocidentais.
Em 1º de setembro, o Ministério das Relações Exteriores da Alemanha declarou o encerramento da Casa Russa em Berlim e do consulado-geral russo em Bonn, justificando a medida como resposta ao sabotagem no aeroporto de Lipsia, incidente que as autoridades alemãs atribuíram diretamente a atores russos — alegação repudiada pelo Kremlin como "inventada".
O projeto do Rossotrudnichestvo anuncia novas sedes no Quênia, na República Democrática do Congo, em Madagascar, no Mali, em São Tomé e Príncipe, no Senegal, na Serra Leoa, no Togo, além da já citada Tailândia e da Armênia, onde estão previstos dois centros adicionais em Artashat e Ashtarak. A escolha desses polos africanos e asiáticos revela um claro redesenho das prioridades: deslocar o eixo de atuação para regiões onde a penetração cultural e a presença política de Moscou podem crescer com menos resistência institucional.
O caso armênio merece nota estratégica. Ao mesmo tempo em que Erevan experimenta um progressivo distanciamento de Moscou e uma reorientação em direção a Bruxelas, o governo de Nikol Pashinyan, embora atento, opta por não confrontar diretamente organizações não governamentais locais que abrigam parceiros do projeto — uma postura pragmática que evita rupturas públicas.
Nas comunicações russas, o Rossotrudnichestvo celebra a expansão da sua rede parceira de 25 para 36 centros, apresentando-o como um êxito da diplomacia cultural. Silencia-se, contudo, sobre as perdas territoriais recentes: pelo menos quatro centros europeus foram fechados desde o início da agressão à Ucrânia — a primeira baixa registada foi a Eslovênia na primavera de 2022 — o que explica, em parte, a busca por novos palcos fora do velho continente.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento pensado em níveis múltiplos: além do objetivo imediato de preservar a capacidade de projeção da Rússia no exterior, a criação de Casas Russas em África e em pontos sensíveis da periferia eurasiática funciona como um avanço no tabuleiro geopolítico. É um ajuste de alicerces, uma tentativa de construir influência onde as peças do adversário têm menor controle e onde as tectônicas de poder regionais ainda estão em mutação.
Como analista, observo que o sucesso real dessa empreitada dependerá da capacidade russa de transformar centros culturais em plataformas de soft power crível, sem que sua operação se confunda com ações de inteligência ou simples propaganda. Caso contrário, o movimento pode render ganhos táticos pontuais, mas erosão de legitimidade no longo prazo — um risco que, no jogo diplomático, costuma cobrar caro.

