Veneza 83: o Pagellone do Lido entre protestos de estilo, Achille Lauro e a chuva que arruinou o red carpet
Veneza 83 no Lido: Jasmine Trinca, Achille Lauro, selfies e a chuva que arruinou o red carpet. Um olhar crítico sobre o festival.
RESUMO ✦
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Veneza 83: o Pagellone do Lido entre protestos de estilo, Achille Lauro e a chuva que arruinou o red carpet
Da praia do Lido chegam, como sempre, imagens que funcionam como um espelho do nosso tempo: o sublime ao lado do risível, a performance política travestida de look e o roteiro oculto da sociedade que se desenrola entre um photocall e outro. Na 83ª edição da Mostra de Cinema de Veneza, quem passou pelo tapete vermelho teve papel principal ou figurante — e nós, com caderno e ironia, anotamos tudo.
Comecemos pela atriz que transformou uma peça de roupa em manifesto: Jasmine Trinca. Declarando guerra ao capitalismo com a elegância de quem sabe que símbolos custam caro, ela apareceu com uma camiseta branca avaliada em mais de 1.000 euros. A contradição era óbvia e proposital — a revolução, canta o figurino, pode até existir, contanto que você possa pagá-la. Esse gesto, simples na forma e ruidoso no efeito, é a semiótica do festival: um protesto que espelha tensões sociais sem abandonar o verniz do luxo.
Do outro lado do caleidoscópio, Achille Lauro chegou ao Lido para a anteprima do documentário Be Brave, realizado com inteligência artificial e dedicado a Renzo Rosso, fundador da Diesel. Ao ser solicitado por uma foto, o cantor respondeu com um seco "Non posso" — uma recusa performática que soou tão teatral quanto qualquer número no tapete. Talvez, brincamos, se a IA estivesse local, duas fotos ele teria tolerado; quem sabe substituindo o rosto por uma versão replicada, tipo um retrato em CGI ao estilo de Pupo?
Entre esses episódios, circula uma fauna típica do Lido: os autoproclamados colecionadores de selfies. São os que se aproximam dos famosos mesmo sem saber identificar nem um nome — a espécie que, paradoxalmente, alimenta o brilho do red carpet. Resistentes e imperturbáveis, esses caçadores de flashes garantem o cenário, ainda que muitas vezes só reproduzam uma imagem fragmentada do festival.
Por fim, a tragédia cotidiana: a chuva. Não a tempestade metafórica, mas a gota concreta que arruinou a estética de horas de preparação. Vestidos demoradamente escolhidos, poses copiadas de catálogos de moda e olhares à la 'Blue Steel' — tudo tensionado por nuvens inesperadas. O verdadeiro drama não foram apenas os fãs molhados; foi a devastação das ambições virais dos aspirantes a celebridade. A pergunta que permanece no ar, quase filosófica e um pouco sarcástica, é: "Onde postar agora a foto que planejei para o Instagram — dos lavabos do Excelsior?"
O festival, como sempre, funciona como um palco onde a cultura pop se mistura ao comentário social. Entre camisetas caríssimas que dizem ser críticas e recusas performáticas que viram notícia, o Lido nos oferece um pequeno reframe da realidade: a vitrine cultural continua, mas o roteiro muda a cada gota. E nós, espectadores críticos, anotamos o que permanece — e o que a água levou.

