Nicolas Maupas em Veneza 83: ‘Clooney, o último grande divo; hoje falta o mistério’

Nicolas Maupas reflete sobre Veneza 83, Clooney como último divo e o papel do cinema hoje: responsabilidade, mistério e integridade.

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Nicolas Maupas em Veneza 83: ‘Clooney, o último grande divo; hoje falta o mistério’

Por Chiara Lombardi — Entre o brilho das primeiras filas e a responsabilidade de comandar um palco, Nicolas Maupas chegou à cerimônia de encerramento da Veneza 83 com a serenidade de quem viveu uma prova profissional intensa e formativa. Em entrevista à Espresso Italia, o ator fez um balanço honesto da experiência como co-apresentador do festival: uma mistura de adrenalina da transmissão ao vivo, exigência da escrita de um roteiro e o peso de representar uma cerimônia que celebra narrativas do nosso tempo — e que, nas suas palavras, “ancora” o público ao presente.

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“É uma sfida do ponto de vista profissional: a diretta, a escrita de um copione, la responsabilità di una cerimonia. Sono state tappe estremamente interessanti e spero di arrivare alla serata finale con un piccolo bagaglio di esperienza”, contou Maupas, traduzindo ao pé do espírito: um jovem artista forjado no calor do ao vivo e do olhar coletivo. Para ele, o protagonista permanece claro: o cinema. São as histórias — mesmo as mais trágicas — que fazem o festival existir, e esta edição, marcada por títulos que refletem o presente, reforçou sua convicção de que a tela tem a tarefa de iluminar questões urgentes.

Viver Veneza, para Nicolas Maupas, foi como revisitar um sonho de infância: “Quando eu era pequeno, a Mostra me parecia inalcançável. Viam-se chegar Hollywood e os grandes nomes do cinema italiano; eu me sentia pequeno”. O desdobrar dessa sensação ganhou outra camada quando ele dividiu o palco com Greta Scarano na cerimônia de abertura — e, logo ali, diante deles, George Clooney recebendo o prêmio de carreira. “Vivi aquilo duas vezes: primeiro concentrado no trabalho, depois, ao voltar para Roma, pensei: ‘Acabei de passar três dias em Veneza’ — foi mágico”, recordou.

Do encontro com Clooney, Maupas reteve sobretudo um modo de estar no mundo. O ator elogia a postura externa do astro: o aplomb, a economia das palavras, a clareza. Esse modo de se apresentar, sugere, corresponde a metade do efeito que as palavras têm. E nesse ponto surge uma observação cultural maior: para Maupas, Clooney representa “um dos últimos grandes divos de Hollywood”. Ele associa a ideia de divismo ao enigma e ao mistério — elementos que, hoje, estariam em declínio por causa da hiperexposição com que celebridades e públicos convivem.

“Hoje o mundo mudou muito em relação a 20-30 anos atrás. Há menos mistério, e o mistério ajudava a construir uma imagem. Clooney é um dos últimos grandes divos de Hollywood, e acho que isso é verdade”, afirmou. Ainda assim, Maupas relativiza a busca pela memorabilidade como objetivo final: a chave, diz ele, é manter-se íntegro, natural e coerente, sobretudo num tempo em que o público começa a ver além da superfície — um retorno discreto à simplicidade.

Com 27 anos, o ator vive essa fase como privilégio e responsabilidade. “‘Not bad’, como disse Djokovic em uma entrevista”, brinca, adotando a leveza de quem sabe o valor simbólico de pequenas frases. Maupas não dá por certo o fato de ter conduzido um dos festivais de cinema mais importantes do mundo: acredita, trabalha e mantém uma consciência firme sobre sua trajetória. Atualmente, ele está envolvido nas filmagens de um projeto ainda não anunciado, mantendo o foco entre sets e compromissos públicos.

Se há um fio narrativo que atravessa suas falas, ele diz respeito ao papel social do cinema: não só como fuga, mas como espelho e farol. Numa época em que os filmes reencenam o presente com urgência, a experiência de Maupas em Veneza funciona como um pequeno refrão do que o entretenimento pode e deve ser — um roteiro oculto que devolve sentido ao público, convidando-o a olhar para além do brilho imediato e a redescobrir o poder transformador da imagem.

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