Veneza 83: Favino fecha a Mostra com 'Dio ride' e a noite da entrega dos Leões
Encerramento da 83ª Mostra de Veneza com 'Dio ride' de Veronesi, Favino e a entrega dos Leoni na Sala Grande às 19h.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Veneza 83: Favino fecha a Mostra com 'Dio ride' e a noite da entrega dos Leões
Chiara Lombardi — A Mostra del Cinema di Venezia chega ao fim em sua 83ª edição com um gesto que mistura fé, subversão e cinema histórico: o filme Dio ride, dirigido por Giovanni Veronesi, é o título de encerramento, apresentado fuori concorso. A projeção e a cerimônia de premiação prometem transformar a noite em um pequeno épico público, onde arte e memória coabitam o mesmo cenário.
Situado no coração do século XVII, o filme acompanha a figura de frate Leopoldo da Casamacchia, vivido por Pierfrancesco Favino, um homem que proclama um modo inesperado de falar de Deus: com riso, proximidade humana e uma alegria contagiante. Enquanto os púlpitos ecoam latim institucional, Leopoldo narra o Evangelho como se contasse um segredo luminoso — e as pessoas respondem: as igrejas esvaziam-se e multidões passam a segui-lo nas praças e estradas.
Essa voz dissidente chega a Roma e incomoda. O Papa considera a pregação perigosa para uma ordem que governa pelo temor, e encarrega o caso ao inquisidor mais temido do tempo, o cardeal Maculani, interpretado por Silvio Orlando. O que parecia ser um processo judicial converte-se em um confronto moral e intelectual, um entrelace que questiona certezas estabelecidas e provoca dúvidas mesmo nos mais firmes defensores do status quo. A partir disso, o roteiro oculto da história se abre: pode-se calar uma voz, mas jamais anular o eco cultural que ela deixa.
Às 19h, na Sala Grande, acontece a tradicional cerimônia de premiação que fechará a mostra — a entrega dos Leoni. A apresentação ficará a cargo dos atores Greta Scarano e Nicolas Maupas, e a noite ainda contará com a performance musical de Francesca Michielin. Antes da projeção de Veronesi, os prêmios serão distribuídos, um gesto que rende tributo aos autores e ao cinema enquanto espelho do nosso tempo.
Como analista cultural, vejo em Dio ride um pequeno monumento à contradição que atravessa nossa época: a busca por narrativas que restauram esperança frente a instituições que se sustentam pelo medo. O filme se propõe como um reframe da realidade histórica, lembrando que a alteridade da voz profética sempre ameaça os equilíbrios de poder.
Naquele cenário veneziano, a cerimônia e a projeção não são apenas um fim de festival: são um convite a reparar o roteiro social que o cinema nos mostra — onde a memória lateja, a dúvida planta sementes e o riso pode ser, paradoxalmente, o sinal mais sério de dissenso.
Detalhes práticos: Dio ride encerra a 83ª Mostra del Cinema di Venezia, com exibição fora de concurso; o enredo remete ao século XVII, com Pierfrancesco Favino no papel central e Silvio Orlando como cardeal inquisidor. A cerimônia de entrega dos Leoni e a apresentação especial acontecem hoje, às 19h, na Sala Grande.

