Corte de Contas Europeia critica estratégia da Comissão sobre tabaco: iniciativas fragmentadas e incertezas na taxação
Corte de Contas Europeia critica ações fragmentadas da Comissão sobre tabaco e alerta para incertezas na taxação e crescimento do comércio ilícito.
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Corte de Contas Europeia critica estratégia da Comissão sobre tabaco: iniciativas fragmentadas e incertezas na taxação
Por Marco Severini — Em uma avaliação de tom rigoroso e técnico, a Corte de Contas Europeia contesta a estratégia que a Comissão Europeia vem delineando para a gestão do tabaco e, especialmente, para o combate ao seu comércio ilícito. O relatório especial divulgado em 8 de setembro aponta problemas tanto de método quanto de conteúdo: iniciativas consideradas fragmentárias, ausência de um orientamento claro e lacunas persistentes na cooperação entre autoridades nacionais.
Petri Sarvamaa, membro da Corte responsável pela auditoria, sublinha a necessidade de uma visão integrada. Segundo ele, é razoável admitir que a tassação possa exercer um efeito de canalização, sobretudo nos mercados mais lucrativos dos produtos de tabaco ilícitos. Ao mesmo tempo, a avaliação revela uma contradição inquietante: enquanto o mercado ilícito segue em expansão, Bruxelas prepara-se para introduzir uma nova tributação sobre estes produtos.
As estimativas citadas pela Corte, oriundas da Comissão, atribuem ao comércio ilícito de tabaco uma perda anual de aproximadamente 13 mil milhões de euros para os cofres da UE e dos Estados-membros. Em paralelo, a própria Comissão projeta arrecadar cerca de 11,2 mil milhões de euros por ano com a nova taxação destinada a contribuir para o próximo orçamento europeu. Em termos práticos, a União correria o risco de perder mais receita para o mercado ilegal do que pretende captar com a tributação.
A Corte, contudo, recomenda cautela na aceitação automática do número de 13 mil milhões: a Comissão não dispõe, segundo os auditores, de uma estimativa independente e fiável sobre a dimensão real do mercado ilícito europeu. E o cenário está a evoluir rapidamente. Se o contrabando continua a representar uma parcela significativa do problema, organizações criminosas estão a deslocar cada vez mais a produção para dentro da União, encurtando cadeias logísticas e aproximando a produção dos consumidores.
Os auditores encontraram locais de produção ilícita em quase todos os Estados-membros visitados. Inspeções realizadas na Bélgica, Espanha, Polônia e Romênia evidenciaram diferenças marcantes na capacidade das autoridades nacionais de enfrentar a ameaça. Na Bélgica, uma fábrica clandestina tinha máquinas capazes de produzir cerca de um milhão de cigarros por hora. Na Espanha, na maior fábrica de cigarros ilícitos já desmantelada no país, foram apreendidos três milhões de maços falsificados. Esses números ilustram que não se trata mais de pequenos circuitos de contrabando, mas de uma produção industrializada e organizada.
A mensagem da Corte é inequívoca: a Comissão deve elevar a sua resposta. Isso implica reforçar a coordenação entre instituições europeias e Estados-membros, desenvolver metodologias robustas para estimativas independentes da dimensão do mercado ilícito, analisar lacunas e discrepâncias na capacidade nacional e promover abordagens baseadas em risco que unam fiscalidade, fiscalização aduaneira e aplicação da lei.
Em termos estratégicos, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro da governação europeia: sem um desenho coerente e alicerces sólidos para a cooperação, qualquer ação fiscal corre o risco de ser neutralizada por uma tectônica de poder subterrânea que redesenha fronteiras invisíveis da produção ilícita dentro da União. A recomendação final da Corte sinaliza a necessidade de um reposicionamento diplomático e operativo, onde a transparência dos dados e a sinergia entre atores sejam o centro de gravidade da política antitráfico.

