Brusca em juízo: “Queríamos atribuir as bombas à esquerda para favorecer Berlusconi”

Brusca afirma em juízo que mafiosos tentaram atribuir as bombas à esquerda para favorecer Berlusconi; relatos sobre Mangano, ameaças e o projeto Sicilia Libera.

Brusca em juízo: “Queríamos atribuir as bombas à esquerda para favorecer Berlusconi”

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Brusca em juízo: “Queríamos atribuir as bombas à esquerda para favorecer Berlusconi”

Em depoimento prestado como testemunha no processo em curso em Florença contra Salvatore Baiardo, o ex-chefe mafioso Giovanni Brusca afirmou que, após os atentados da máfia em 1992 e 1993, havia um plano deliberado de instrumentalizar as ações violentas para fins políticos. Ouvido por videoconferência a partir de localidade protegida, Brusca disse que, em conversas com Leoluca Bagarella, comentavam usá-las “como se fossem sugeridas pela esquerda”, com o objetivo de facilitar a entrada de Silvio Berlusconi na política.

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O relato foi colhido pelo promotor Leopoldo De Gregorio, que vinha questionando sobre os laços entre Cosa Nostra e figuras políticas. Segundo Brusca, para chegar a Berlusconi os mafiosos recorreram a contatos como Vittorio Mangano. “Houve um encontro para lhe dar o encargo”, relatou o réu, acrescentando que Mangano comunicou ter conseguido um contato e que Berlusconi teria agradecido, prometendo “dar uma mão” em breve.

Brusca descreveu ainda uma contra-pressão: foi enviada aos intermediários uma “ameaça velada” — se não recebiam ajuda, avisaram, colocariam novas bombas para colocar Berlusconi em dificuldade política. No entanto, Brusca negou possuir informações concretas sobre vínculos patrimoniais ou financeiros de Berlusconi anteriores a 1993, afirmando que teve conhecimento apenas de boatos e referências informais entre outros chefes.

Em seu depoimento, o ex-boss afirmou que, em sua percepção, as empresas de Berlusconi “pagavam o pizzo”, sem, contudo, mencionar nomes de estabelecimentos como a Standa no bairro Brancaccio, em Palermo. Brusca atribuiu a decisão de usar Mangano como ponte para Berlusconi a Stefano Bontade.

O depoente também abordou tentativas políticas locais: citou o empresário palermitano Gianni Jenna e um projeto de criação de um partido chamado Sicilia Libera entre 1993 e 1994. Brusca disse ter aderido inicialmente, mas retirou-se após enviar dois homens de confiança para averiguar, que deram retornos negativos. Segundo ele, Giuseppe Graviano teria participado do projeto no início, embora, posteriormente, Bagarella não tenha mais mencionado o tema.

Outro episódio recordado por Brusca ocorreu depois da prisão de Bagarella, em 1995. Em um encontro informal — descrito pelo depoente como “um pokerino” — Matteo Messina Denaro teria comentado que Graviano havia visto no pulso de Berlusconi um relógio avaliado em 500 milhões de liras. Brusca reconheceu que, por sua paixão por relógios, aceitou a narrativa com facilidade, mas tratou-a como relato de conversa entre criminosos.

A reconstrução dos laços entre os Graviano e Berlusconi integra a linha de investigação do processo, sobretudo pela fotografia que Baiardo teria mostrado ao apresentador Massimo Giletti, alegando tratar-se de Berlusconi. O depoimento de Brusca visa fornecer contexto sobre as intenções e os canais de contato entre mafiosos e atores políticos na virada dos anos 1990.

O tribunal em Florença prossegue com a instrução, enquanto a acusação busca cruzar os relatos deste e de outros depoentes com provas documentais e testemunhais. Trata-se de um capítulo do inquérito que tenta separar fatos comprovados de boatos circulantes entre agentes da criminalidade: um trabalho de apuração rigorosa e de cruzamento de fontes que o processo ainda exige.

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