Gallucci: parar com discursos — para recuperar o calçado italiano servem competitividade, mercados e investimentos
Gallucci: setor calçadista exige competitividade, presença nos mercados e investimentos para construir o calçado italiano até 2030.
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Gallucci: parar com discursos — para recuperar o calçado italiano servem competitividade, mercados e investimentos
Entrevista ao presidente da seção Calzature de Confindustria Fermo, o maior polo calçadista da Itália e da Europa. Em diálogo direto com a imprensa, Gianni Gallucci traça um diagnóstico pragmático sobre a situação do setor e aponta medidas essenciais para sua reestruturação.
“Não estamos diante de uma simples crise cíclica: os choques dos últimos seis anos tornaram-se mais frequentes e, por vezes, sobrepostos. Pensar que basta aguardar a recuperação do ciclo econômico seria um erro”, afirma Gallucci à Espresso Italia/Labitalia. A conclusão é clara: o objetivo não deve ser voltar ao patamar de 2019, mas construir o calçado de 2030. Segundo o dirigente, o consumidor, os mercados e a concorrência mudaram, exigindo respostas estruturais e não meramente temporárias.
Os números confirmam a centralidade do setor: o calçado italiano reúne mais de 3.000 empresas e cerca de 70 mil trabalhadores, mantendo papel de destaque na indústria manufatureira e no sistema da moda. Em 2024, as exportações superaram 11,6 bilhões de euros, com mais de 85% da produção destinada ao exterior. Ao mesmo tempo, a produção nacional recuou para cerca de 125 milhões de pares. “Esses dados demonstram algo fundamental: o Made in Italy não perdeu relevância, mas o setor entrou em uma fase de seleção. A demanda global existe e o valor do Made in Italy permanece, porém ser um bom produtor já não basta. É preciso ser competitivo, inovador e estar presente nos mercados certos”, sublinha Gallucci.
A prioridade imediata, segundo o presidente da seção, é a competitividade. “Devemos vender valor e não perseguir preço. A competição asiática nos apresenta um dado inequívoco: não podemos vencer pela guerra dos volumes, mas podemos vencer pela guerra do valor.” O argumento é pragmático: o futuro do calçado italiano não pode passar pelo produto mais barato, e sim por aquele que justifique preço elevado por meio de qualidade, história, design, confiabilidade e identidade.
Gallucci alerta para fatores que corroem a capacidade concorrencial das empresas nacionais: carga tributária e custo do trabalho que, em sua avaliação, são handicap que não podem ser tidos como inevitáveis. “Não é plausível exigir que nossas empresas disputem com concorrentes europeus de custos significativamente menores e com gigantes asiáticos que atuam em outra liga salarial, mantendo aqui uma pressão fiscal e contributiva tão elevada. Se queremos continuar a produzir na Itália, é preciso tornar isso viável economicamente.”
Para além do diagnóstico, o presidente defende políticas industriais concretas. “O Made in Italy não se protege com slogans: protege-se reduzindo o custo do trabalho, apoiando investimentos e tornando as empresas mais competitivas.” Entre as medidas reivindicadas estão incentivos a modernização, apoio à internacionalização e estímulos à inovação e qualificação da força de trabalho — todos orientados a posicionar o setor na cadeia global pelo valor, não pelo preço.
Na apuração em que esta entrevista se insere, o recado é técnico e direto: sem mudanças estruturais na base de custos e sem maior presença estratégica nos mercados, o setor correrá risco de contrair-se ainda mais. O desafio proposto por Gallucci é, portanto, prático e de longo prazo: preparar o setor calçadista italiano para 2030, com políticas que combinem competitividade, acesso a mercados e estímulo a investimentos.
Apuração in loco, cruzamento de fontes e foco nos fatos brutos: o diagnóstico é robusto e a agenda exigida às instituições é precisa. A defesa do calçado nacional passará, segundo o presidente de Confindustria Fermo, por decisões que tornem a produção em território italiano sustentável e competitiva.

