Imperium: Loznitsa reescreve a história da URSS com arquivos italianos em Veneza
Em Veneza, Sergei Loznitsa usa arquivos italianos inéditos para reescrever a URSS em Imperium, um filme-viagem sobre memória e poder.
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Imperium: Loznitsa reescreve a história da URSS com arquivos italianos em Veneza
Por Chiara Lombardi — Apresentado na 83ª Mostra Internacional de Arte Cinematográfica de Veneza, Imperium é a mais recente investigação fílmica do ucraniano Sergei Loznitsa, um cineasta que recusa a zona cinzenta entre documentário e arqueologia visual. Construído inteiramente a partir de cerca de 60 horas de material inédito preservado nos arquivos italianos, o filme reconstrói a União Soviética dos anos 1970 fora do cânone propagandístico que a tornou reconhecível.
«Na URSS o passado não era uma narrativa fixa, era um instrumento político» — essa percepção, nascida na infância do diretor na Ucrânia, funciona como lente para Imperium. Loznitsa revisita imagens que, segundo ele, «conservam rastros do que realmente aconteceu», mesmo quando narrativas oficiais tentaram suprimir ou redirecionar esse passado. É justamente essa materialidade residual das imagens que orienta o filme: sequências que se impõem como vestígios e, juntas, compõem um mapa sensorial e histórico.
O projeto foi desencadeado pelo encontro com negativos e fitas filmadas entre 1970 e 1973 por uma equipe italiana liderada pelo antropólogo e musicólogo Diego Carpitella. Entre os nomes associados às filmagens estão Folco Quilici, Luigi Di Gianni, Giorgio Arlorio, Giuseppe Ferrara, Rudi Assuntino e Gianni Bonicelli. Desses arquivos emergem trajetórias que vão do Oceano Ártico aos Carpados, do deserto de Karakum às repúblicas caucasianas — Geórgia, Armênia, Azerbaijão — até o Uzbequistão, o Tajiquistão e a periferia do Pacífico soviético.
Mais do que uma panorâmica geográfica, Imperium é um filme-viagem: Loznitsa organiza o material seguindo uma lógica que parte do centro simbólico — Moscou — e se lança para as periferias da Ásia Central, passa pelo Cáucaso, cruza a Ucrânia e alcança os Estados bálticos, para depois retornar ao coração do poder. Esse percurso materializa o eterno conflito entre centro e periferia, uma linha narrativa que revela tanto a hegemonia quanto as fissuras culturais que a cortez ideológica tentava uniformizar.
O elemento humano ocupa o centro do filme: rostos, ritos, festas, trabalhos cotidianos e tradições étnicas se sucedem e mostram a pluralidade que existia sob a bandeira soviética. A sensibilidade do olhar italiano — ao mesmo tempo distante do aparato oficial soviético e atenta às diferenças regionais — oferece a Loznitsa uma matéria-prima raramente vista: uma URSS não apenas como máquina política, mas como arquivo de microvidas.
O processo criativo foi lento e arqueológico. Loznitsa conta que, em maio de 2024, ao revisar os primeiros excertos, teve a intuição de que ali se escondia um filme, embora não soubesse ainda qual. A montagem transformou imagens isoladas em episódios autônomos, até que o conjunto revelou uma narrativa não linear, uma espécie de roteiro oculto da sociedade que se deixa ler nas bordas e nas omissões.
Como observadora do Zeitgeist, sugiro olhar para Imperium além do legado histórico: o filme funciona como um espelho do nosso tempo — uma reflexão sobre memória, controle narrativo e o reframe da realidade através dos arquivos. Em tempos de reescritas políticas e revisionismos, a obra de Loznitsa nos lembra que as imagens óticas guardam, muitas vezes, uma verdade mais resistente que a retórica do poder.
Apresentado em Veneza, Imperium não é apenas uma recuperação de imagens: é uma proposta de reescrita, um convite a ler o passado como corpus diverso e contraditório — e a perceber como o cinema pode ser instrumento de restituição histórica.

