Veneza 83: Poitras e Mueller vestem 'Fight Fascism' e 'Fk ICE' ao apresentar They're Here
Veneza 83: Poitras e Mueller apresentam They're Here com camisetas 'Fight Fascism' e 'F**k ICE', protesto contra violência da Operation Metro Surge.
RESUMO ✦
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Veneza 83: Poitras e Mueller vestem 'Fight Fascism' e 'Fk ICE' ao apresentar They're Here
Por Chiara Lombardi — Na 83ª Mostra de Cinema de Veneza, o tapete vermelho virou um palco de resistência simbólica quando as diretoras Laura Poitras e Rachel Lauren Mueller subiram ao Lido com camisetas pretas estampadas com as palavras "Fight Fascism" e "F**k ICE". A mensagem política acompanhou toda a sessão de They're Here, filme apresentado Fuori Concorso que transforma o horror contemporâneo em espelho do nosso tempo.
O longa recupera, em tom distópico, a violência vivida por moradores anônimos de Minneapolis durante a chamada Operation Metro Surge, operação da agência federal Immigration and Customs Enforcement (ICE) que radicalizou ações de controle migratório nos Estados Unidos. A investigação e a dramatização cinematográfica reconstroem a trajetória fictícia de Edén Villa e de outros cidadãos que tentam escapar e resistir à ocupação paramilitar da cidade — um roteiro oculto da sociedade que reverbera como documento e como fábula assustadora.
Em paisagens invernais e quase suspensas, o filme mostra agentes mascarados sequestrando crianças, moradores viajando escondidos em bagageiros, prisioneiros acorrentados embarcados em aviões sob o olhar quase indiferente de turistas, e ciclistas transformados em vigias de uma força invasora. A escolha estética — o horror que se mistura ao registro documental — constrói uma semiótica do terror: os monstros são, muitas vezes, ouvídos antes de serem vistos.
"Nosso ponto de partida foi um vídeo de dez segundos encontrado online: uma cena invernal idílica cortada por gritos — 'Fiquem dentro. Fechem as portas! Estão aqui.'" — explicam as diretoras.
Para Poitras e Mueller, a sutileza da montagem reproduz a normalização cotidiana da violência estatal. "Como jornalistas, assistimos estarrecidas à naturalização da violência de Estado", afirmam. A referência a vítimas reais da operação — como Renee Good e Alex Pretti, ativistas que perderam a vida no contexto da repressão — enquadra o filme dentro de uma urgência documental: não se trata apenas de gerar pavor, mas de apostar na imagem como ferramenta de transgressão e memória.
O que They're Here oferece é, portanto, um reframe da realidade: imagens de resistência e de resgate emocional que subvertem a sensação de inevitabilidade. Em vez de aceitar o roteiro já escrito pela normalização, o filme aponta para uma história em aberto onde a violência estatal pode ser confrontada e negada.
Na voz de Poitras, veterana do cinema-engajado, o filme atua como um chamado — um eco cultural que nos convoca a olhar e a reagir. Em Veneza, essa convocação ganhou forma literal nas camisetas pretas do elenco, numa performance que não se limita à sala de exibição: é uma intervenção pública, uma etiqueta política colocada sobre a frente do festival.
Assim, They're Here não é apenas um exercício estético: é um documento de época, o espelho de um clima político turbulento e a prova de que o cinema pode, ainda, chacoalhar percepções e inspirar mobilização.

