Gabriele Cavallini vence o Prêmio Literário Giuseppe Berto 2026 com 'Cuoio'
Gabriele Cavallini vence o Premio Giuseppe Berto 2026 com 'Cuoio' (Einaudi). Cerimônia em Capo Vaticano; júri presidido por Emanuele Trevi.
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Gabriele Cavallini vence o Prêmio Literário Giuseppe Berto 2026 com 'Cuoio'
Por Chiara Lombardi para Espresso Italia — Em um gesto que parece gravar na pele da narrativa contemporânea uma marca indelével, Gabriele Cavallini foi anunciado vencedor da XXXIII edição do Premio Letterario Giuseppe Berto com o romance "Cuoio", publicado pela Einaudi. O veredito foi proclamado no jardim da casa de Giuseppe Berto, em Capo Vaticano (Ricadi, Vibo Valentia), lugar que foi tanto refúgio quanto oficina criativa para o escritor veneto.
A cerimônia integrou a programação da XI edição de Estate a Casa Berto e foi conduzida pelo jornalista e voz de Zapping na Rai Radio1, Giancarlo Loquenzi. Presidida pelo escritor e vencedor do Premio Strega Emanuele Trevi, a júri destacou a força sensorial e moral do livro. Para os jurados, "Cuoio" é "um romance de odores, vísceras, escombros e de uma violência obstinada. Uma violência antiga, irredimível" — descrição que projeta o livro como um espelho do nosso tempo, mas também como um roteiro oculto nas entranhas da condição humana.
Segundo as motivações oficiais, Cavallini escreve uma língua que esfolia o leitor, assim como as máquinas que tratam a pele. Ele nos conduz a uma fábrica de dor: vitelos que gritam, restos de carne que envenenam o ar e a alma. A comparação com textos de Coetzee aparece não por acaso, assim como o eco kafkiano de "Nella colonia penale", onde o mal, inextirpável, fica literalmente inscrito na pele. Ainda assim, o romance não se limita a ser um ensaio sobre o preço oculto do luxo; é, antes, uma exploração dos abismos íntimos de uma família maldita pela convivência com a morte.
Entrar no rol dos vencedores do Premio Letterario Giuseppe Berto é, para Cavallini, integrar uma tradição que desde 1988 — ano de criação do prêmio por iniciativa de Cesare De Michelis — se dedica a descobrir e valorizar vozes iniciais da narrativa italiana. Quase quatro décadas depois, o prêmio continua a operar como um farol que lança ao público e à crítica autores emergentes que moldam a paisagem literária contemporânea.
A alternância geográfica do prêmio, entre Capo Vaticano e Mogliano Veneto (Treviso), reitera a ambivalência cultural do legado de Berto: o Veneto das origens e a Calábria escolhida como lugar de escrita e repouso. Nesta edição, esteve presente como madrinha Antonia Berto, filha do escritor, reforçando o laço afetivo e memorial que sustenta o evento.
O vencedor recebeu um prêmio em dinheiro de €5.000, enquanto mais €2.000 foram repartidos entre os quatro finalistas restantes. A entrega em Capo Vaticano, em meio ao perfume do jardim que testemunhou páginas importantes de Giuseppe Berto, transformou a cerimônia em um momento de reflexão sobre memória, corporeidade e a semiótica do contemporâneo — lembrando-nos que a literatura, frequentemente, é o espelho e o corte que define o rosto de uma época.
Enquanto "Cuoio" entra no cânone dos estreantes premiados, a obra de Cavallini convida leitores e críticos a confrontarem o desconforto e a beleza mórbida do que tantas vezes preferimos ocultar. Como observadora do zeitgeist, fica claro: a narrativa premiada não é mera denúncia, é um reframe da realidade que nos impele a reconhecer, nas peles e nos corpos da ficção, as marcas do nosso próprio presente.

