Fórum Ambrosetti 2026: empresários aprovam o governo; opositores dizem que “a verdade está no supermercado”
No Fórum Ambrosetti 2026 empresários aprovam o governo; opositores afirmam que a avaliação real está nas praças, mercados e postos de gasolina.
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Fórum Ambrosetti 2026: empresários aprovam o governo; opositores dizem que “a verdade está no supermercado”
O Fórum Ambrosetti encerrou sua edição de 2026 com um paradoxo que se repete aos olhos de quem observa a política italiana: na sala elegante de Villa d'Este a plateia empresarial elogia o governo, enquanto do palco saem críticas duras das oposições. A fotografia é um retrato da tensão entre os alicerces do poder e a percepção da vida cotidiana — a ponte entre Roma e a rua permanece frágil.
Uma pesquisa Teha, aplicada a mais de duzentos empresários e gestores presentes, atribuiu ao governo um julgamento positivo por 68,3% dos entrevistados. O voto modal foi um 7 em 9, escolha feita por cerca de um terço do painel. Já as oposições receberam um veredito negativo de 83% do mesmo grupo, dez pontos percentuais a mais que em 2025.
Logo na chegada a Villa d'Este, Matteo Renzi relativizou os números: “A verdadeira questão não são as sondagens, o sondaggio mais forte é no supermercado e no posto de gasolina”, afirmou, lembrando que a avaliação pública se mede também nos gestos do cotidiano, onde as pessoas sentem o peso das decisões econômicas.
Do mesmo terreno prático partiu Elly Schlein, que trouxe dados concretos para reforçar o argumento: em Taranto, disse, chegam “2.500 lettere di licenziamento” — cartas de demissão — enquanto a crescita zero mantém a Itália na cauda do G20. Schlein aproveitou a presença de figuras europeias na plateia, como Paolo Gentiloni e Enrico Letta, para deslocar o debate ao quadro comunitário: criticar a regra da unanimidade, que paralisa decisões, e defender cooperações reforçadas e investimentos comuns.
Na defesa, a secretária do Partido Democrático foi taxativa. Aceitar uma meta de gasto militar de 5% sem uma arquitetura para um Exército europeu comum, disse, equivale a “comprar mais armas de Trump”. Para Schlein, a corrida ao rearmamento por Estados isolados não aumenta nem a eficiência das despesas nem a capacidade de dissuasão coletiva. No campo energético, ela reivindicou o uso dos 14 bilhões de flexibilidade da UE para acelerar a descarbonização e reduzir o custo da energia — instrumentos que, segundo ela, poderiam compensar anos de estagnação.
Renzi retornou ao tema da defesa com tom conciliador: a despesa militar existe, mas deve ser uma despesa europeia. Ligou a proposta a um tema recorrente seu — o retorno dos cérebros que emigraram — imaginando um aproveitamento dual-use das competências para segurança e inovação.
Em conexão remota, o ex-primeiro-ministro Giuseppe Conte avaliou o balanço dos quatro anos do governo: “A estabilidade talvez tenha sido um agravante para o que poderia ter sido feito.” Conte advertiu para o empobrecimento do ceto médio, para um aumento do emprego que supera o crescimento do PIB — sinal, segundo ele, de baixa produtividade — e descreveu como “irresponsáveis” certos compromissos da NATO que, afirmou, “nunca poderíamos sustentar”. Repetiu a proposta de um fundo soberano nacional montado sobre ativos importantes não utilizados pelo Estado, com objetivo de mobilizar um grande volume de recursos públicos em favor do desenvolvimento.
O encontro em Villa d'Este desenhou, portanto, uma cidade suspensa: do lado de dentro, empresários medem o governo pelos indicadores e pelo terreno da governança; do lado de fora, opositores lembram que a construção dos direitos e da confiança passa pelo mercado, pelo trabalho e pelas filas do supermercado. Como repórter, mantenho a ponte entre esses dois lados: os números que legitimam o poder precisam ser traçados contra a experiência cotidiana dos cidadãos — só assim os alicerces da lei e da política se consolidam.

