Venezia 83: o dia de Paul Schrader e a chegada de 'La città dei vivi' de Gabbriellini
Venezia 83 traz Paul Schrader com The Basics of Philosophy e a adaptação de Edoardo Gabbriellini de Nicola Lagioia, entre destaques do festival.
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Venezia 83: o dia de Paul Schrader e a chegada de 'La città dei vivi' de Gabbriellini
Por Chiara Lombardi — No espelho do nosso tempo, a 83ª Mostra de Cinema de Veneza volta a funcionar como um palco onde passado, culpa e ética se encontram diante das câmeras. Nesta segunda-feira do festival, a programação traz, fora de competição, o novo trabalho de Paul Schrader, The Basics of Philosophy, produzido por Martin Scorsese, e movimenta o circuito com a estreia do filme dirigido por Edoardo Gabbriellini, adaptado do romance homônimo de Nicola Lagioia e inspirado no omicídio Varani.
The Basics of Philosophy acompanha o professor John Jorissen, retratado num cenário universitário do Midwest americano. Interpretado por um elenco que inclui Jack Huston, Sofia Boutella, Daniel Zovatto, Bill Pullman, Dana Delany, Shiloh Fernandez, Karl Glusman e Elizabeth Petruso, Jorissen vive entre aulas, um ensaio sobre Spinoza e a relação com Becca, sua companheira e também docente, além do convívio com Willie, filho adolescente dela.
O filme se desdobra como um roteiro de consciência: a morte do pai de Jorissen, Melvyn, e a inesperada aparição de Miguel Basque no funeral acionam flashbacks que devolvem à superfície um acidente encoberto pelo pai do professor em troca de dinheiro e do custeio dos estudos de Miguel. Consumido pela culpa e pela convicção de que o Deus de Spinoza não o absolverá, Jorissen busca no Nembutal uma maneira de expiar o passado, enquanto a trama avança até uma cena final marcada por um altar silencioso, olhar do jovem Miguel e o gesto do pequeno Willie oferecendo o anel. É uma peça cinematográfica que funciona como reframe moral: ética e culpa em close-up.
O dia em Veneza também segue no seu concurso com apostas díspares: após as exibições de Wild Horse Nine de Martin McDonagh e Bucking Fastard de Werner Herzog, a seleção apresenta 15/18 (A Place To Heal) de Cédric Kahn e Mr. Nelson, Did You Kill People? de Shinya Tsukamoto.
No filme de Kahn, acompanhamos Lucia, 17 anos, levada pela polícia ao serviço de neuropsiquiatria para adolescentes de um hospital público que conhece bem. Lá ela reencontra a amiga Eloïse e integra um grupo de jovens confrontados por seus demônios. Entre médicos como Etienne, visitas familiares e a tensão institucional de um setor em constante pressão, surgem laços frágeis, possíveis vias de cura e momentos de inesperada leveza. A chegada do enigmático Enzo traz, porém, uma perturbação capaz de alterar esse frágil equilíbrio.
Enquanto isso, a expectativa em torno de Gabbriellini e da adaptação do livro de Lagioia reforça a função do festival como um dispositivo de memória coletiva: quando o cinema aborda crimes reais e as feridas que eles deixam, estamos diante de um roteiro oculto da sociedade, que pede não apenas representação, mas reflexão sobre responsabilidade, mídia e o espaço público.
Venezia 83 segue, portanto, como um mosaico de vozes — autores clássicos e jovens promessas — onde cada filme atua como um espelho e uma lente, convidando a audiência a olhar além da superfície e a decifrar o roteiro íntimo que atravessa nosso presente.

