Veneza 83: Entre aplausos, deslizes e o charme de Borghi no segundo dia do Lido

Veneza 83: aplausos, deslizes de Orlando Bloom, o domínio de Gianni Amelio e o carisma de Alessandro Borghi no segundo dia do Lido.

Veneza 83: Entre aplausos, deslizes e o charme de Borghi no segundo dia do Lido

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Veneza 83: Entre aplausos, deslizes e o charme de Borghi no segundo dia do Lido

Por Chiara Lombardi — A Mostra do Cinema em Veneza é sempre esse espetáculo ambíguo: um espelho do nosso tempo onde o sublime e o absurdo dividem o mesmo plano de cena. No segundo dia da programação de Veneza 83, o Lido ofereceu microdramas, pequenas glórias e alguns desencontros que valem mais que um still de tapete vermelho.

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Há quem vá ao Lido apenas pelo cinema, quem viva para o red carpet, quem busque um brinde no bar do Excelsior ou um mimo grátis; e há quem, como nós, carregue caderninho e ironia para captar o roteiro oculto por trás das conferências. Entre aplausos cavernosos e silêncios cortantes, entre looks que desafiam as leis da gravidade e boatos que se deslocam mais rápido que as vaporettos, Veneza faz da convivência entre o extraordinário e o trivial um verdadeiro ato performático.

O primeiro tropeço do dia teve nome e sobrenome: Orlando Bloom. Sob um sol implacável, fãs e fotógrafos aguardavam o ritual da chegada triunfal de barco ao cais do Palazzo del Casinò. Havia expectativa, flashes prontos e até uma certa coreografia aquática no ar. Pois o ator optou pelo asfalto: entrou de carro e por uma entrada lateral, pondo fim ao balé náutico e deixando mais de um admirador em desalinho. Não bastasse o desencontro com a tradição, Bloom também manteve a postura minimalista nas palavras durante a conferência — rente à economia verbal inaugurada por outras estrelas no festival.

Contraponto absoluto: o veterano cineasta Gianni Amelio, 81 anos, transformou sua aparição em domínio de cena. Falou com fluidez torrencial, monopolizando o microfone e relegando os demais participantes a breves confirmações. Entre as falas, uma pérola em tom rústico — lembrada em italiano — provocou um desconforto político e conceitual: «Non me ne frega niente che sei brava, ti voglio bella». Em poucos segundos, como numa montagem subcutânea, décadas de debates sobre representação feminina ganharam outra cena no Lido.

O prêmio de simpatia do dia, entretanto, foi entregue sem contestação a Alessandro Borghi. Com a naturalidade de quem é o vizinho de quadra que virou estrela, Borghi sorriu, conversou e irradiou proximidade — aquele carisma que convida a oferecer um spritz sem formalidades. É o nosso pequeno grande herói urbano, um Spiderman romano que transita pelos palcos internacionais com a familiaridade de um protagonista local.

Menção honrosa para os verdadeiros coreógrafos invisíveis do Lido: os fotógrafos. Vestidos de black total, equipados e vigilantes, eles recortam a paisagem do festival com precisão — prontos para um clique que pode denunciar tanto a elegância de um vestido quanto o improviso de um momento íntimo. Há neles algo de orquestra silenciosa: sem perder a compostura, produzem os agudos visuais que fazem a Mostra pulsar.

Veneza continua sendo, assim, um set a céu aberto onde cada entrada, cada silêncio e cada piada fora de tempo compõem a narrativa coletiva do evento. O Lido não é apenas palco para filmes; é o cenário de transformação onde a memória cultural se inscreve em pequenos gestos—e onde cada deslize ou gesto de gentileza vira material para pensar o que o cinema nos mostra sobre quem somos.

Fique atento: o festival ainda reserva muitas cenas. E enquanto isso, nós seguimos com caderno em mãos, à espera do próximo take.

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