Veneza 83: Entre os irmãos Gallagher, o brilho de Clooney e as moscas-da-noite do Lido
Veneza 83: irmãos Gallagher, Clooney, Paul Schrader e os mosquitos dominam o terceiro dia da Mostra de Cinema de Veneza.
RESUMO ✦
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Veneza 83: Entre os irmãos Gallagher, o brilho de Clooney e as moscas-da-noite do Lido
Chego ao Lido com o bloco de notas na mão e a curiosidade como lente. A Mostra de Cinema de Veneza sempre foi um espelho do nosso tempo: ali o sublime coexiste com o absurdo e o verniz do entretenimento revela, por vezes, o roteiro oculto da sociedade. Na terceira jornada do festival, os sinais foram claros — e deliciosamente contraditórios.
Primeiro, a guinada surpreendente de tom: os irmãos Oasis — Liam e Noel Gallagher — pisaram em Veneza. Havia quem profetizasse uma bronca familiar antes mesmo da chegada; houve também quem sussurrasse que apareceriam apenas para o red carpet, como estrelas de catálogo. No Lido, porém, sua presença quebrou o feitiço do “mai uma alegria” e deu ao festival um sabor britânico de rebeldia e improviso. É como se o rock tivesse entrado na narrativa do festival para lembrar que, por trás do glamour, pulsa uma memória coletiva feita de ruídos e contradições.
Em contraste, a chegada de Paul Schrader com uma vistosa parure de ouro gerou comentários que mais parecem um exercício de semiótica social: que Sky o convoque para interpretar um Pietro Savastano em versão decrépita de Gomorra, sugeriram alguns — leitura apropriada para quem vê na moda a extensão de um personagem. A joia é acessório, mas também índice: o diretor, com seu ouro, ocupa um lugar entre a reverência e a caricatura de si mesmo.
E então está ele, George Clooney, a realeza ambulante de Hollywood. Primeiro dia: recebe o Leão de Ouro alla carriera e recolhe os aplausos que a indústria lhe deve; segundo dia: ministra uma masterclass que, comparada ao documentário de sete horas de Luca Guadagnino, parece um passeio no parque; terceiro dia: voltamos a vê-lo no tapete vermelho, lindíssimo, acompanhado da parceira igualmente cinematográfica. Os fãs suspiram: “What else?”. Eu, com as solas gastas e as baterias da câmera quase no fim, penso: talvez um pouco de sossego. Clooney, no Lido, funciona como um eco cultural — ele é o relato que a própria indústria conta sobre si mesma.
Mas, no teatro líquido da Laguna, há coadjuvantes que não pedem crédito: as moscas (ou melhor, os mosquitos) do Lido desempenham um papel de presença constante. A umidade transforma cada jornalista em buffet ambulante; você vira alvo e objeto de afeição incondicional desses pequenos predadores. O efeito é quase metafórico: aqui, até o incômodo é performático, faz parte da mise-en-scène do festival.
Para fechar a noite, uma notícia que cheira a competição institucional: a Festa del Cinema di Roma anuncia que sua edição durará mais um dia, justamente enquanto Veneza ainda brilha. É um contraponto que lembra o jogo de luzes entre dois palcos europeus — e a disputa por tempo, atenção e memória cultural segue roteirizando o calendário festivalier.
Assim seguimos, entre flashes e aflições, anotando os gestos que o tapete vermelho revela e as pequenas narrativas que não chegam às conferências de imprensa. A Mostra de Cinema de Veneza continua sendo esse cenário de transformação onde o glamour e a humildade se encontram, onde celebridades e mosquitos compõem, juntos, a sinfonia inacabada do Lido.

