Paul Schrader em Veneza: culpa, Spinoza e o peso do passado em The Basics of Philosophy

Paul Schrader apresenta The Basics of Philosophy em Veneza: um estudo sobre culpa, Spinoza e redenção com Jack Huston e Sofia Boutella.

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Paul Schrader em Veneza: culpa, Spinoza e o peso do passado em The Basics of Philosophy

Paul Schrader voltou a Veneza com a precisão austera de um cineasta que transformou a culpa em matéria-prima narrativa. Apresentado Fuori Concorso na 83ª Mostra del Cinema di Venezia, The Basics of Philosophy confirma o cineasta como aquele que não consegue — e talvez não queira — abandonar o tema que o persegue desde a infância: o sentimento opressivo da culpa.

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Em entrevista na conferência de imprensa, Schrader explicou com a lucidez de quem revisita um roteiro íntimo: criado na tradição calvinista holandesa, educado em escolas cristãs e até na faculdade de teologia, ele acredita que somos, como diria Freud, programados nos primeiros anos de vida. "Uma vez che quella programmazione ti entra dentro, la esegui per tutta la vita", disse o diretor — a frase ecoa como um espelho do nosso tempo, onde traumas familiares reverberam nas escolhas adultas.

No novo filme, Schrader troca o carteador ou o giardiniere por um professor universitário. Jack Huston vive John Jorissen, docente de filosofia em uma pequena universidade do Midwest, obcecado por um ensaio sobre Baruch Spinoza. Entre aulas, escrita e o convívio com a companheira Becca (interpretada por Sofia Boutella) e o filho adolescente dela, Willie, Jorissen aparece brilhante, severo e impenetrável — até que o passado aflora.

Com a morte do pai, Melvyn, e a inesperada presença do jovem Miguel Basque no funeral, surgem flashbacks que desvendam um antigo acidente encoberto. O pai de Jorissen teria ocultado o incidente em troca de dinheiro e da garantia de que Miguel teria seus estudos pagos. O peso desse segredo consome o professor: convencido de que o Deus de Spinoza jamais perdoaria suas ações, ele busca no Nembutal uma saída trágica, mesmo após ter pedido Becca em casamento.

Quando Miguel conta a verdade a Becca, Jorissen nega. Em desespero, procura Miguel e confessa a intenção de tirar a própria vida — é impedido. O filme se fecha num quadro ritualístico e doloroso: na igreja, enquanto Jorissen e Becca trocam votos, Miguel observa em silêncio e Willie entrega o anel ao que passa a ser seu novo pai. É um final que funciona como reframe da realidade: redenção ambígua, culpa que não se dissolve, mas que encontra, talvez, uma forma de convivência.

O elenco ainda traz nomes como Daniel Zovatto, Bill Pullman, Dana Delany, Shiloh Fernandez, Karl Glusman e Elizabeth Petruso. Na produção executiva, a presença de Martin Scorsese consolida a parceria histórica entre os dois — uma dupla que deixou marca na cinematografia americana desde os anos 1970 e 80, com títulos que reconfiguraram a narrativa do indivíduo em crise.

Schrader não faz cinebiografia nem exercício terapêutico; ele trabalha a culpa como arquitetura dramática, a semiótica do viral que circula entre memória familiar e ética filosófica. The Basics of Philosophy é, mais do que um filme sobre um homem, um estudo sobre como a infância e suas programações morais continuam a moldar o roteiro de nossa vida adulta — e sobre como a redenção, quando vem, tem a forma ambígua de um gesto público, quase sacramental.

Como observadora do zeitgeist cultural, digo: este filme é um espelho em que encontramos não só um personagem atormentado, mas a reverberação de uma sociedade que ainda negocia culpa, perdão e as pequenas decisões que definem um destino.

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