Mostra de Veneza 83: Coppa Volpi vai a Mathilde Arcel e John Malkovich em decisões que reverberam além da tela
Mostra de Veneza 83 consagra Mathilde Arcel e John Malkovich com a Coppa Volpi; prêmios também destacam roteiros e revelações em Orizzonti.
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Mostra de Veneza 83: Coppa Volpi vai a Mathilde Arcel e John Malkovich em decisões que reverberam além da tela
Num diálogo entre memória e cena, a 83ª edição da Mostra de Veneza desenhou ontem seu painel de honra: a Coppa Volpi feminina foi entregue a Mathilde Arcel por sua interpretação em Woman Unknown, dirigido por May el-Toukhy, enquanto a Coppa Volpi masculina consagrou o veterano John Malkovich por Wild Horse Nine, filme de Martin McDonagh.
As escolhas foram anunciadas pela comissão do concurso principal presidida por Maggie Gyllenhaal, composta por Kaouther Ben Hania, Daniel Blumberg, Francesco Casetti, Xavier Giannoli, Shahrbanoo Sadat e Johnnie To — uma mesa que, como um espelho do nosso tempo, privilegiou performances e roteiros que interrogam identidades e memórias coletivas.
Visivelmente emocionada, Mathilde Arcel dedicou a premiação “às milhares de mulheres que sofreram e viveram a experiência que contamos no filme”, agradecendo a diretora May el-Toukhy “por não ceder a compromissos e por ter a coragem de contar esta história”. Arcel lembrou que se trata de seu “primeiro papel como protagonista”, um desafio interpretativo que a deixou profundamente tocada.
No mesmo espírito de reconhecimento autoral, o prêmio de melhor roteiro foi para o diretor e roteirista Stéphane Brizé, juntamente com Coralie Amédéo e Olivier Gorce, por Un Bon Petit Soldat. A vitória reafirma o lugar da escrita como arquitetura do sentido — o roteiro como reframe da realidade que organiza personagens e conflitos num cenário de transformação.
Na seção Orizzonti, o júri presidido por Valérie Donzelli premiou a melhor roteirização a Tommaso Landucci e Damiano Femfert por I figli della scimmia, filme dirigido pelo próprio Landucci. A premiação de interpretação masculina foi para Riccardo Scamarcio, que, emocionado, dedicou o troféu “a todos os pais do mundo”, incluindo os seus, e compartilhou o reconhecimento com o jovem estreante Andrea Aggio, que interpreta seu filho no filme.
O prêmio de melhor interpretação feminina em Orizzonti coube a Laleh Marzban, protagonista de Falling House de Mohsen Gharaei. Em suas palavras, a atriz dedicou o prêmio “às mulheres do Irã, que pagaram o preço mais alto até pela menor forma de liberdade”, apontando para a dimensão política e simbólica do prêmio: a arte como eco cultural e ato de testemunho.
Por fim, o Prêmio Marcello Mastroianni, voltado a revelações jovens, foi atribuído a Malou Khebizi, atriz de 23 anos presente em 15/18 (A place to heal), de Cédric Kahn — um reconhecimento que aponta para a renovação de vozes no cinema europeu.
Mais do que uma sucessão de estatuetas, a noite em Veneza funcionou como um roteiro oculto da sociedade: premiou coragem interpretativa, rigor de escrita e performances que conversam com memórias coletivas e tensões contemporâneas. Em tempos de festivais que se reinventam, as decisões da Mostra 83 lembram que o cinema permanece um espelho complexo do presente — às vezes áspero, sempre necessário.

