L'estranea: o horror ao sol de Paolo Strippoli que reescreve a 'Zampa di scimmia'
L'estranea, de Paolo Strippoli: horror diurno que reescreve a 'Zampa di scimmia' e revela o roteiro oculto do público nas bilheterias.
RESUMO ✦
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L'estranea: o horror ao sol de Paolo Strippoli que reescreve a 'Zampa di scimmia'
Em um verão cinematográfico que insiste em surpreender, L'estranea, de Paolo Strippoli, surge como um exercício de horror iluminado — um filme que faz da claridade tão protagonista quanto o medo. Estranha por título e por proposta, a obra assume a velha fábula da "Zampa di scimmia" e a transforma num conto contemporâneo, onde desejos cumpridos cobram um preço que não admite retórica.
Strippoli assina um horror que se vê sem o recurso fácil da penumbra; ao contrário, a câmera persiste na luz, expondo a violência do cotidiano com a frieza de um espelho. Essa escolha estética não é apenas formal: funciona como um reframe da narrativa, obrigando o espectador a encarar as consequências dos atos no calor do dia, sem o alívio que a escuridão costuma oferecer. É como se o filme dissesse que os monstros não se escondem mais nas sombras — eles vivem à vista de todos.
No mesmo fio cortante da análise cultural, o filósofo Žižek voltou a provocar ao sbeffeggia o rótulo de "I dimenticati", lembrando que o que chamamos de esquecido muitas vezes foi silenciado por circuitos que falam só entre si. Nesse sentido, os incassi (receitas de bilheteria) tornam-se termômetros mais honestos sobre o que está acontecendo fora dos cineclubes: o público escolhe, paga e consome narrativas que dialogam com seus medos pragmáticos e simbólicos.
Não é um elogio fácil ao popular nem um ataque ao autoral; é antes uma observação sobre o roteiro oculto da sociedade. L'estranea encontra sua eficácia ao alinhar um dispositivo de horror clássico com um pulso contemporâneo — memória, culpa e o desejo como motor trágico. A performance do elenco, trabalhada na contensão e no espaço entre o que é dito e o que permanece não dito, compõe um mosaico íntimo que ressoa fora da tela.
Em termos de produção, a aposta de Strippoli em evidenciar texturas diurnas e sons domésticos transforma a casa no verdadeiro campo de batalha: não se trata mais de confrontar um invasor, mas de enfrentar as consequências íntimas de um pacto mal calculado. Assim, a narrativa se torna eco cultural — um pequeno terremoto que reverbera na memória coletiva.
Como observadora do zeitgeist, afirmo que filmes como L'estranea nos convidam a revisar as categorias com que lemos o sucesso e o esquecimento. O resultado é um cinema que não se reduz ao susto, mas propõe uma pergunta moral: o que estamos dispostos a sacrificar para ver nosso desejo realizado? Esse é o centro pulsante do filme, e também o motivo pelo qual as salas comerciais podem estar, hoje, mais reveladoras do que nunca sobre a direção do nosso imaginário.
Chiara Lombardi — para Espresso Italia

