Trump quer refundar Hollywood enquanto Veneza perde a presença americana; 'Ink' de Danny Boyle recebe aplausos

Trump fala em refundar Hollywood enquanto Veneza registra queda de americanos. 'Ink', de Danny Boyle, emociona com homenagem aos jornais de papel.

Trump quer refundar Hollywood enquanto Veneza perde a presença americana; 'Ink' de Danny Boyle recebe aplausos

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Trump quer refundar Hollywood enquanto Veneza perde a presença americana; 'Ink' de Danny Boyle recebe aplausos

Por Chiara Lombardi — No cenário que mistura tapetes vermelhos e correntes de ar das salas de projeção, dois relatos convergem e desenham um quadro curioso do zeitgeist cinematográfico: de um lado, a figura de Trump a falar em refundar Hollywood; do outro, a Veneza do festival sentindo o esvaziamento da presença americana — e, entre esses sinais, o público aplaude, emocionado, o novo filme de Danny Boyle, Ink.

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Na última leva de exibições, Clooney foi premiado e recebeu reconhecimento — gesto que também serviu como ponte simbólica entre gerações e sensibilidades políticas diferentes. Foi notável, inclusive, o aplauso vindo de espectadores rotulados como "woke", um dado que diz muito sobre a plasticidade do público contemporâneo: o entretenimento como espelho no qual multidões em aparente oposição ainda encontram pontos de contato.

Ink, de Danny Boyle, entrega-se à celebração melancólica do jornal impresso. As imagens das rotativas em movimento, os pacotes de jornais arremessados às primeiras bancas da manhã, compõem um mosaico cinematográfico que funciona como um ritual de memória — a semiótica do jornal como artefato cultural. Para os nostálgicos, há ali motivos de sobra para a lágrima; para o observador cultural, o filme apresenta um reframe sobre como lembramos e preservamos rotinas que parecem desaparecer.

Este contraste — entre o discurso ruidoso de reestruturação cultural vindo de Washington e a cena mais silenciosa de uma Veneza com menos americanos — funciona como um roteiro oculto da sociedade contemporânea. A ideia de refundar Hollywood evoca tanto a vontade de reescrever uma indústria quanto o desejo de reinserir velhas narrativas num novo contexto político. Em Veneza, contudo, a ausência física de muitos espectadores vindos dos EUA transforma o festival: torna-o, paradoxalmente, mais europeu, mais concentrado no que o cinema europeu e global têm a dizer sobre identidade e memória.

O que Ink confirma é que, mesmo num momento de deslocamentos geopolíticos, certos temas atravessam fronteiras. A reverência ao objeto jornal — sua textura, seu cheiro, sua cadência matinal — aparece nas telas como um eco cultural que questiona o futuro da informação, da memória e do público. É cinema que age como espelho do nosso tempo, propondo uma contemplação sobre perdas e permanências.

Enquanto discursos políticos prometem reformas radicais e manchetes tensionam audiências, Veneza oferece um palco para a reflexão: o festival torna-se uma lupa onde se lê não apenas o estado da indústria, mas também o roteiro das emoções coletivas. E, no centro dessa cena, Danny Boyle entrega um trabalho que, com suas rotativas e pacotes de jornais, consegue arrancar aplausos mesmo dos mais críticos — um sinal de que certas imagens continuam capazes de tocar, independentemente das fronteiras ideológicas.

Em suma, entre promessas de refundar Hollywood e a diminuição da presença americana em Veneza, Ink surge como um espelho: uma narrativa sobre o que perdemos e um convite para entender por que ainda choramos pelos rituais do passado.

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