Veneza 83 abre com Tinto Brass e aperitivo Netflix: glamour, mosquitos e um Lido que espelha nossos tempos
Abertura da Veneza 83 com Tinto Brass e aperitivo Netflix; glamour, risco de West Nile e o relato do Lido entre repelentes e flashs.
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Veneza 83 abre com Tinto Brass e aperitivo Netflix: glamour, mosquitos e um Lido que espelha nossos tempos
Por Chiara Lombardi — A Mostra de Cinema de Veneza, na sua edição 83, resolveu começar com um estalo: entre a presença emblemática de Tinto Brass e o badalado aperitivo da Netflix, a noite no Lido virou um pequeno cenário onde o glamour e o imprevisto se encontraram.
O que deveria ser uma pré-abertura ritual — o ritual contemporâneo do tapete, dos brindes e dos flashes — ganhou um episódio à parte quando o rumor do risco de West Nile pairou sobre o jardim do party. Foi o nosso correspondente "imbucado" no Lido quem nos trouxe o relato com uma pitada de ironia: além dos coquetéis e conversas sussurradas, havia um coro discreto de borrifos de repelente. A imagem é paradoxal e perfeita: a festa mais curada da temporada dividindo espaço com o frasco de spray antimosquito, como se a arquitetura social da noite precisasse de um adereço biológico.
A aparição de Tinto Brass — sempre figura controversa e, por isso mesmo, imprescindível para a cartografia cultural italiana — funcionou como um espelho do nosso tempo. Brass não é apenas um nome; é uma assinatura de uma época do cinema que insiste em provocar. Sua presença reframeou a abertura: não só por nostalgia, mas porque o diretor encarna um tipo de memória audiovisual que a Mostra gosta de convocar quando quer discutir identidade, escândalo e classificação moral em plena praça pública.
No meio desse cenário, a Netflix armou seu tradicional aperitivo: produção, talentos e um rol de convites estratégicos que transformam o evento num microcosmo de soft power cultural. Mas mesmo os scripts mais ensaiados encontram improvisos — e o risco do West Nile foi o improviso desta noite. O efeito foi quase simbólico: o viral biológico interrompendo, por alguns instantes, a lógica do viral midiático.
Nosso relato do Lido também revela a face menos fotografada da Mostra: a logística de convivência entre festa e cidade, entre promoção e cuidado coletivo. Pessoas com máscaras leves de maquiagem e borrifos de repelente nas bolsas; seguranças que trocam aplausos por instruções de saúde pública; conversas que oscilam entre a análise de um trailer e o comentário sobre a mosca — ou o mosquito — que insistia em rondar os copos. É a semiótica do viral aplicada à vida real.
Se a Mostra é, como sempre, um palco, nesta noite ela assumiu também o papel de espelho. Refletiu nossas prioridades: o apetite por espetáculo e a vulnerabilidade frente a pequenas ameaças invisíveis. O apreço por nomes consagrados como Tinto Brass e a presença onipresente de plataformas como Netflix compõem o roteiro oculto de uma indústria que negocia memória, imagem e poder simbólico. E, enquanto isso, um frasco de repelente continua sendo talvez o item mais democrático entre os acessórios de festa.
Veneza 83 abriu, portanto, com um duplo estalo — o do carisma e o do imprevisto — e deixou claro que o festival não é apenas celebração: é campo de batalha simbólico, laboratório de tendências e, ocasionalmente, cenário para pequenas epifanias que nos lembram como o entretenimento é, sempre, um reflexo do que somos.

