Trump, Hungria e Kiev: movimentações que redesenham o tabuleiro da crise ucraniana
Trump descarta convite a Putin; Hungria trava adesão da Ucrânia à UE; tiroteio entre SBU e Hur em Kiev eleva tensão interna e diplomática.
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Trump, Hungria e Kiev: movimentações que redesenham o tabuleiro da crise ucraniana
Por Marco Severini — Em novos lances que revelam a complexa tectônica de poder em torno da guerra na Ucrânia, declarações e incidentes recentes expõem fraturas políticas e operacionais que vão além do campo de batalha. A sequência de episódios — desde observações do presidente norte-americano até um confronto armado entre serviços de inteligência em Kiev — desenha um cenário onde diplomacia, vetos e conflitos internos se entrelaçam como peças num tabuleiro estratégico.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou a entrevistadores que não chegou a considerar o convite ao presidente russo, Vladimir Putin, para a cúpula do G20 que se realizará em Miami. "Não me passou pela cabeça", respondeu Trump à GBNews quando questionado sobre essa hipótese. A frase, curta, é sintomática: mesmo diante de apelos variados, Washington claramente escolhe sua agenda pública como uma sequência de movimentos táticos, preservando, por ora, as linhas formais da diplomacia transatlântica.
No flanco europeu, o primeiro-ministro da Hungria, Peter Magyar, voltou a afirmar que a Ucrânia não está pronta para ingressar na União Europeia. Magyar ressaltou que o país permanece em estado de guerra e que não cumpriu condição-chave apontada por Budapeste: o restabelecimento dos direitos da minoria húngara na região da Transcarpácia. Relatos da Euractiv confirmam que a Hungria suspendeu o avanço das negociações de adesão com a Ucrânia e com a Moldávia, impedindo progressos em capítulos centrais como acesso ao mercado único e políticas sociais.
Do ponto de vista institucional, trata-se de um bloqueio que funciona como um contrapeso interno ao projeto europeu: uma torre de influência construída sobre interesses nacionais específicos, capaz de frear a expansão da arquitetura comunitária quando esta confronta sensíveis vetores identitários e territoriais.
Em Riga, a ministra das Relações Exteriores da Letônia, Baiba Braze, ofereceu uma leitura alternativa sobre as causas do conflito. Ao Tg2 Post, Braze negou que a Rússia estivesse ameaçada pela OTAN e afirmou que, em 2022, a adesão da Ucrânia à Aliança não estava realmente na mesa. Para a chanceler letã, a narrativa de que a expansão da OTAN teria provocado a invasão é um "falso pretexto" e parte de uma campanha de desinformação promovida por Moscou. "A OTAN é uma aliança de defesa, baseada na Carta das Nações Unidas", afirmou Braze, sublinhando o caráter reativo, não ofensivo, da Aliança.
Enquanto isso, em Kiev, surgiram tensões internas entre órgãos de inteligência. O procurador-geral ucraniano, Ruslan Kravchenko, anunciou a imputação de um agente do SBU e de um militar do serviço de inteligência militar Hur após um tiroteio entre membros das duas instituições. A ocorrência deu-se durante uma operação do SBU para deter Stepan Kaplounov, alegadamente vicecomandante de um Corpo de Voluntários russos e pertencente a uma unidade vinculada ao Hur. O SBU acusa Kaplounov de manter contatos com o FSB russo e de ter recebido ordens para preparar o assassinato de um opositor russo — acusações que ele nega.
Perícias balísticas foram determinadas para apurar a dinâmica dos disparos e a origem dos projéteis, enquanto a investigação prossegue sob o escrutínio público. O presidente Volodymyr Zelensky se manifestou sobre o episódio, reforçando a necessidade de esclarecimentos, embora os desdobramentos permaneçam sob investigação formal.
Em conjunto, essas notícias compõem um retrato de complexidade onde cada jogador move-se com cautela: Washington que evita gestos que possam reabrir canais com Moscou; Budapeste que usa sua posição como alavanca dentro da UE; governos bálticos que denunciam narrativas de ameaça fabricada; e, no interior ucraniano, serviços de segurança que espelham tensões institucionais. O resultado é um redimensionamento contínuo das fronteiras políticas e estratégicas — um jogo de xadrez em que cada peça carrega bagagem histórica e riscos imediatos, e em que a estabilidade do próximo lance depende tanto de coerência interna quanto de equilibradas articulações externas.

