Israel ameaça revogar cidadania dos diretores de 'Naza' após prêmio em Veneza: crise cultural e política
Ministros israelenses criticam doc 'Naza', premiado em Veneza, e ameaçam revogar cidadania dos diretores; tensão entre cultura e Estado.
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Israel ameaça revogar cidadania dos diretores de 'Naza' após prêmio em Veneza: crise cultural e política
Por Marco Severini — Em um movimento que revela tanto a fragilidade dos alicerçes da diplomacia interna quanto o redesenho de fronteiras simbólicas no tabuleiro cultural, o governo de Israel reagiu com veemência ao êxito do documentário 'Naza', dirigido por Yuval Abraham e Rachel Szor, vencedor do Prêmio Especial do Júri na Mostra de Veneza.
O ministro da Cultura, Miki Zohar, classificou a obra como ""vil"" e afirmou, em publicação na plataforma X, que o filme "constitui uma traição ao Estado". Zohar foi além: ameaçou instaurar procedimentos que podem culminar na revogação da cidadania dos cineastas. Na mesma mensagem, o ministro defendeu as reformas que promoveu no financiamento cinematográfico do país, justificando-as como um mecanismo para impedir que "os cidadãos israelenses paguem do próprio bolso por danos aos soldados das Forças de Defesa de Israel e ao Estado".
O episódio escalou com a intervenção do ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, que acusou os autores de denegrirem os militares israelenses e os chamou de "uma vergonha e um desonra para todo o povo de Israel", conclamando-os a deixar o país. Ben Gvir acrescentou ainda que, segundo sua leitura, os "inimigos" — em referência ao Hamas e à Faixa de Gaza — ficariam satisfeitos em recebê-los.
Como analista, observo que este é um movimento que ultrapassa o mero debate artístico: estamos diante de um movimento decisivo no tabuleiro político, com implicações para a liberdade de expressão, para a política cultural e para a governança do Estado. A ameaça de perda de cidadania é uma peça dura em um jogo jurídico-político que pode produzir um efeito intimidatório sobre criadores e instituições culturais. Trata-se de um instrumento de pressão que reposiciona o Estado não apenas como regulador, mas como árbitro moral de narrativas históricas e contemporâneas.
Do ponto de vista legal, a revogação de cidadania é uma medida extrema e pontuada por complexidades: critérios jurídicos, implicações internacionais e possíveis repercussões em direitos fundamentais. No âmbito da política interna, a reforma proposta por Zohar no financiamento de filmes denuncia uma intenção clara de condicionar o apoio estatal a narrativas consideradas patrióticas — um redesenho de influência que pode alterar o mapa de produção cultural israelense.
Externamente, a reação dura do Executivo pode gerar repercussões negativas na imagem internacional de Israel, especialmente num período de intensa visibilidade diplomática e midiática. A tentativa de punir cineastas premiados em Veneza tem o potencial de transformar uma vitória cultural em um episódio de custo diplomático, ampliando a tectônica de poder entre governo, sociedade civil e mercados culturais internacionais.
Em suma, a crise gerada em torno de 'Naza' não é apenas sobre um filme: é sobre a definição de quem pode narrar a história do país, sobre os limites do dissenso em tempos de conflito e sobre os alicerces — frágeis ou não — da democracia cultural. No tabuleiro geopolítico, cada lance tem consequências; aqui, a jogada dos ministros é tanto simbólica quanto estratégica, com risco real de provocar um efeito de inverno na paisagem cinematográfica israelense.

