Naza: o 'algoritmo da morte' expõe máquina de guerra algorítmica e constrange Tel Aviv

Documentário 'Naza' expõe uso de algoritmos e IA na guerra em Gaza e provoca crise diplomática em Tel Aviv após ovacionada exibição em Veneza.

Naza: o 'algoritmo da morte' expõe máquina de guerra algorítmica e constrange Tel Aviv

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Naza: o 'algoritmo da morte' expõe máquina de guerra algorítmica e constrange Tel Aviv

Por Marco Severini — A Mostra de Cinema de Veneza não recebeu apenas mais um filme; assistiu ao que pode ser descrito como um abalo sísmico nas relações entre Israel e o debate público internacional. Intitulado Naza — referência ao acrônimo militar israelense utilizado para estimar os danos colaterais civis antes de um ataque — o documentário investigativo assinado por Yuval Abraham e Rachel Szor trouxe à luz uma face tecnológica e burocrática da guerra que muitos prefeririam manter nos bastidores.

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Projeta‑do sob medidas de segurança excepcionais, o filme recebeu uma ovação em pé de 25 minutos no Lido. No entanto, o espetáculo diplomático se converteu rapidamente em tensão política: em Tel Aviv, o lançamento foi interpretado como uma afronta à narrativa oficial e suscitou reações implacáveis de setores próximos ao governo.

No núcleo do trabalho dos cineastas estão as testemunhas inéditas de 24 ex‑oficiais da inteligência israelense, sujeitos a anonimato e a máscaras que obscurecem os rostos diante da câmera. Em tom frio e documental, esses relatos descrevem a metamorfose do conflito em Gaza: um sistema de combate que se apoia em algoritmos preditivos e inteligência artificial para traçar decisões táticas, avaliando previamente quantos civis podem ser considerados ‘aceitáveis’ para eliminar um alvo atribuído ao Hamas.

Os realizadores narram um processo administrativo e técnico — que denominam, com acerto provocador, uma “burocracia da destruição” — capaz de transformar escolhas de vida e morte em variáveis e métricas. Para a plateia veneziana, a revelação operou como um movimento decisivo no tabuleiro da consciência pública: não mais apenas uma guerra de homens e armas, mas uma guerra onde algoritmos desenham a fronteira entre alvo e vítima.

Em Israel, a recepção foi diametralmente oposta. Ambientes próximos ao poder e uma parte da imprensa qualificaram o documentário como uma operação de propaganda difamatória contra as Forças de Defesa Israelianas (IDF), acusando os autores de apresentar um quadro unilateral e descontextualizado. Segundo os diretores, a imprensa local procurou inicialmente minimizar a matéria, ou mesmo justificar as práticas que o filme descreve — e quem toca o tema da operacionalização tecnológica dos bombardeios é, no momento, frequentemente rotulado como risco à segurança nacional.

Como analista, observo aqui mais do que um choque de narrativas: vejo o redesenho de um eixo de influência entre tecnologia militar, responsabilização política e opinião pública internacional. O documentário força um debate sobre os alicerces frágeis da diplomacia contemporânea, onde decisões algoritmizadas produzem efeitos geopolíticos reais e duradouros. Em termos estratégicos, a obra desloca peças sensíveis do tabuleiro, obrigando estados, tribunais e sociedades civis a questionarem quem controla as regras do engajamento armado.

Se a arte muitas vezes funciona como lente para o inconfessável, Naza coloca essa lente sobre métodos que, até pouco tempo, transitavam entre relatórios fechados e salas de guerra. Resta agora ver se o desconforto político se converterá em investigação, regulação, ou em blindagem institucional. No xadrez das grandes decisões, cada movimento conta — e este pode não ser apenas cultural, mas também prelúdio de mudanças institucionais na gestão da força.

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