Hoekstra alerta: dependência da China encarece a transição verde e impõe escolhas estratégicas à UE
Hoekstra avisa que a dependência da China encarece a transição verde da UE e exige ações imediatas para reduzir vulnerabilidades estratégicas.
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Hoekstra alerta: dependência da China encarece a transição verde e impõe escolhas estratégicas à UE
Por Marco Severini — Em uma leitura sóbria dos riscos e oportunidades que dividem o futuro energético europeu, o comissário europeu para a Ação Climática, Wopke Hoekstra, advertiu que a dependência da China pelas tecnologias de energia limpa tem hoje um custo estratégico cujo pagamento está apenas começando. Em entrevista à Euronews, Hoekstra afirmou que a União Europeia terá de aceitar custos mais elevados no curto prazo para reduzir essa vulnerabilidade, sob pena de tornar a correção mais difícil e dispendiosa no futuro.
Segundo o comissário, a marcha para a autonomia tecnológica deveria ter começado "há cinco ou dez anos". Adiar as decisões, disse, equivaleria a postergar gastos que depois resultarão em maiores perturbações no mercado e em políticas menos flexíveis. "Será muito mais barato e vantajoso agir agora, em vez de hesitar e esperar outros cinco ou dez anos", afirmou Hoekstra, traçando um alerta pragmático que mistura cálculo econômico e estratégia geopolítica.
A UE precisa acelerar a instalação de painéis solares, parques eólicos, baterias e outros sistemas de armazenamento para atingir a neutralidade climática até 2050. Contudo, a rápida expansão das renováveis confronta uma cadeia de fornecimento já dominada por atores chineses: empresas de Pequim controlam mais de 80% do mercado de armazenamento residencial por baterias e cerca de 88% das importações de baterias de íon-lítio, de acordo com dados da Wood Mackenzie.
Hoekstra traçou a comparação histórica que poucos desejam repetir: a Europa já conheceu a dependência estratégica do gás russo de baixo custo. Hoje, advertiu, existe o risco de substituir aquela dependência por outra, igualmente constrangedora, desta feita ligada aos componentes essenciais da transição verde. "As dependências em vários setores se tornaram simplesmente demasiado grandes", definiu, qualificando a situação de "perigosa e desconfortável" para as ambições climáticas e para a segurança económica do bloco.
No plano político, a questão ganhou prioridade na agenda comunitária. Os ministros da Energia debateram a dependência do bloco em sistemas de armazenamento produzidos na China durante uma reunião sob a presidência cipriota da UE. Paralelamente, o déficit comercial europeu com a China alcançou, em 2025, um recorde de 1 bilhão de euros por dia, intensificando o pedido de líderes por um reequilíbrio das relações econômicas consideradas hoje «insustentáveis».
Bruxelas tem respondido com medidas de proteção do mercado interno, direcionadas a empresas chinesas por questões que vão de produtos ilegais a subsídios estatais e investimentos externos. Pequim reagiu com advertências sobre possíveis retaliações. "O diálogo com a China continua necessário. Mas deve produzir resultados. E quando o diálogo não basta, devemos estar prontos a utilizar plenamente os nossos instrumentos", declarou a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, a 27 de agosto.
Neste momento, a Europa enfrenta um dilema de arquitetura estratégica: avançar com maior autossuficiência custa recursos imediatos e exige um desenho industrial cuidadoso; porém, adiar a reforma é abrir mão de manobra política e econômica num tabuleiro onde as peças se movem segundo regras de influência e oferta. Em termos de geopolítica industrial, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro — uma escolha entre preservar a estabilidade dos alicerces ou aceitar o risco de um redesenho de fronteiras invisíveis na cadeia de valor global.
Hoekstra indicou setores-chave como a indústria solar e de baterias como prioritários para a intervenção. A estratégia da UE, portanto, será combinar investimentos, políticas industriais e instrumentos comerciais para recuperar margem de manobra, mesmo sabendo que essa reconfiguração terá um preço no curto prazo. O desafio é equilibrar a urgência climática com a necessidade de securitização econômica — uma operação que exige visão de Estado, paciência e movimento coordenado entre parceiros europeus.

