Le Pen centra campanha na habitação e promete “prioridade aos franceses” em comício estratégico
Le Pen centra campanha em habitação e custo de vida, prometendo “prioridade aos franceses” e cortes de IVA sobre energia.
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Le Pen centra campanha na habitação e promete “prioridade aos franceses” em comício estratégico
Por Marco Severini — Em um discurso marcado por vocação estratégica mais do que por estardalhaço, Marine Le Pen colocou a questão da habitação e da crise do custo de vida no centro de sua campanha presidencial, durante seu primeiro grande comício em Hénin-Beaumont, no norte da França. A líder do Rassemblement National prometeu que os cidadãos franceses estarão “em primeiro lugar no próprio país”, independentemente da cor da pele, religião ou origem.
“Garantiremos a todos os cidadãos franceses um direito natural e justo, como acontece em todo país do mundo”, declarou Le Pen, numa formulação que apela ao sentimento de soberania nacional e ao retorno aos alicerces do contrato social. A candidata atacou a crise do custo de vida e comprometeu-se a intervir tanto no setor de habitação social quanto no mercado privado, imputando parte dos problemas a entraves ambientais e administrativos das normas urbanísticas.
Inscrevendo-se numa narrativa de prioridade nacional, Le Pen anunciou que o princípio se aplicará também à habitação, com preferencialidade de acesso aos alojamentos sociais para cidadãos franceses. No plano fiscal, prometeu reduzir o IVA de 20% para 5,5% sobre gás, eletricidade e gasóleo de aquecimento, enquanto criticava a erosão dos serviços públicos: “Para onde vão os recursos, se impostos e taxas sobem enquanto os serviços se degradam?”, perguntou, questionamento que procura explorar a fratura entre arrecadação e prestação estatal.
Hénin-Beaumont — cidade de cerca de 26 mil habitantes — consolidou-se como fortaleza do Rassemblement National. O prefeito Steeve Briois governa ali há 14 anos, e Le Pen representa o departamento do Pas-de-Calais na Assembleia Nacional desde 2017. Sua trajetória política remonta a 1998, quando obteve o primeiro mandato como conselheira regional, no então Nord-Pas-de-Calais.
“Como expressar minha gratidão ao ver tantos de vocês novamente aqui, nesta antiga terra mineira tão patriótica?”, disse Le Pen à multidão, evocando uma cartografia afetiva do eleitorado trabalhista que o partido tenta manter sob seu domínio.
O deputado e porta-voz do partido, Laurent Jacobelli, explicou à imprensa que a afinidade do território com o RN decorre da sensação de traição pela globalização e pela decadência de serviços públicos: “Aqui compreendemos que soberania tem significado; que pátria e nação são valores essenciais. Por isso Le Pen conquistou eleitores: ela mostra que soberania e reindustrialização são objetivos exequíveis.”
Num gesto de coesão, Le Pen fez entoar aos apoiadores os parabéns de aniversário para Jordan Bardella, apontado pelo partido como possível futuro primeiro-ministro, uma cena que buscou apagar rumores de tensões internas que circularam nas últimas semanas. No tabuleiro político, a cena funcionou como um movimento preventivo para consolidar a frente interna antes das próximas jogadas eleitorais.
Do ponto de vista geopolítico e estratégico, a ênfase na prioridade aos franceses e na intervenção sobre a habitação representa um redesenho de fronteiras invisíveis: não se trata somente de política doméstica, mas de reposicionar a narrativa do RN como árbitro da soberania econômica e social frente às forças da globalização e da regulação supranacional. A promessa de reduzir impostos energéticos busca, em simultâneo, aliviar a pressão imediata sobre os lares e cimentar um capital político entre as classes médias e populares.
Na leitura dos movimentos do partido, a campanha em Hénin-Beaumont foi calculada como uma abertura formal de um novo ciclo eleitoral — uma jogada que combina simbolismo local, propostas de curto impacto e apelo a estruturas históricas de identidade regional, numa tentativa de transformar ressentimento social em vantagem eleitoral.

