Leonardo anuncia testes operacionais do Michelangelo Dome na Ucrânia até o fim de 2026
Leonardo fará testes do Michelangelo Dome na Ucrânia até fim de 2026; foco inicial é defesa contra drones em ambiente operacional real.
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Leonardo anuncia testes operacionais do Michelangelo Dome na Ucrânia até o fim de 2026
Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha frentes tecnológicas e industriais no tabuleiro da segurança europeia, a Leonardo informou que realizará, até o final de 2026, os primeiros testes operacionais do Michelangelo Dome em solo ucraniano. A confirmação veio do CEO Lorenzo Mariani, em entrevista ao Il Sole 24 Ore, que detalhou o cronograma e a prioridade inicial do programa.
"Confermo il cronoprogramma dichiarato: nella parte finale dell'anno predisporremo una fase di test direttamente in territorio ucraino. Si tratterà in particolare della componente collegata alla difesa dagli attacchi di drones, un tassello fondamentale dello scudo ma non l'unico", declarou Mariani ao jornal financeiro. A ênfase na proteção contra enxames de drones reflete a natureza imediata e prática das ameaças enfrentadas no teatro ucraniano.
Mariani apresentou uma visão estratégica mais ampla para a defesa europeia. Depois de anos em que a guerra pairou às portas do continente, afirmou ele, a Europa dispõe agora de maior visibilidade sobre as ameaças ao cotidiano — o que exige não apenas maiores desembolsos financeiros, muitas vezes desiguais entre Estados-membros, mas programas conjuntos e arquiteturas integradas da União Europeia.
O anúncio chega em um contexto de elevada tensão: as recentes ondas de ataques por drones atribuídos a forças russas animaram o debate nos palácios europeus e motivaram a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, a afirmar que a União deve entrar em uma nova era da defesa, na qual incidentes com drones se tornam parte da nova normalidade. Nesse ambiente, a presença industrial de Leonardo no país já foi formalizada: a empresa constituiu em maio a Leonardo Ukraine, com sede em Kiev, como primeiro polo industrial do grupo no território ucraniano.
O Michelangelo Dome não é um único sistema de defesa, mas uma arquitetura multidomínio concebida para integrar sensores, plataformas e capacidades através de cinco esferas: ar, terra, mar, espaço e ciber. Apoiado por inteligência artificial, computação de alto desempenho e data fusion, o objetivo é forjar uma "cúpula" dinâmica — capaz de detectar, rastrear e neutralizar ameaças heterogêneas, dos enxames de drones a mísseis de cruzeiro de baixa altitude, passando por vetores hipersônicos e ameaças híbridas e cibernéticas.
O programa, oficialmente apresentado no plano industrial 2026-2030, inclui o contributo da MBDA no segmento misilístico — consórcio de referência europeu em mísseis do qual a Leonardo é acionista — e prevê a integração da futura constelação Space Guardian, voltada à vigilância em alta resolução de infraestruturas críticas. A empresa estima que o projeto abra oportunidades comerciais na ordem de 21 bilhões de euros ao longo de uma década.
A escolha de testar primeiramente a componente anti-drones na Ucrânia é deliberada: o teatro ucraniano representa hoje o campo de provas mais exigente do mundo para sistemas integrados de defesa aérea, sujeito a ondas combinadas de mísseis e drones e a condições operacionais reais. Para a Leonardo, validar tecnologias em um ambiente operacional — em vez de um polígono controlado — constitui um movimento decisivo para aferir resiliência e interoperabilidade.
Do ponto de vista geopolítico e industrial, trata-se de um alicerce que pode reconfigurar ecologias de defesa na Europa: um deslocamento prudente, mas estratégico, que projeta influência tecnológica e capacidade de dissuasão. No grande tabuleiro da estabilidade euro-atlântica, o Michelangelo Dome aparece como um movimento pensado para articular capacidades e suprir lacunas — não só tecnológicas, mas também políticas — na tectônica de poder entre Estados e alianças.

