Tabaco: Corte de Contas da UE critica a estratégia da Comissão e alerta para expansão do mercado ilícito
Corte de Contas da UE critica a Comissão por ações fragmentárias sobre o tabaco e alerta expansão do mercado ilícito e lacunas na tributação.
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Tabaco: Corte de Contas da UE critica a estratégia da Comissão e alerta para expansão do mercado ilícito
Luxemburgo – Em um movimento que redesenha, no tabuleiro institucional europeu, os limites da ação comunitária sobre o tabaco, a Corte de Contas Europeia expôs hoje preocupações substanciais sobre a abordagem adotada pela Comissão Europeia na gestão do setor e, em particular, no combate ao mercado ilícito.
O relatório especial publicado em 8 de setembro deixa claro que as iniciativas europeias são, em sua essência, consideradas fragmentárias e sem um claro orientamento, refletindo falhas persistentes na cooperação entre as autoridades nacionais. Petri Sarvamaa, membro da Corte responsável pela auditoria, adverte que a ação comunitária exige um ajuste estratégico: «É sensato supor que a tassação pode exercer um efeito de canalização, especialmente nos mercados mais lucrativos dos produtos do tabaco ilícitos», afirmou.
Os auditores lembram números que impõem urgência à revisão de políticas: segundo estimativas da Comissão citadas no relatório, o comércio ilícito de tabaco subtrai cerca de 13 mil milhões de euros anuais aos cofres da UE e dos Estados‑membros. Em contrapartida, a proposta de nova tributação sobre produtos do tabaco pretende arrecadar 11,2 mil milhões de euros por ano, destinados a financiar o próximo orçamento europeu. O cálculo, portanto, revela que a União, na melhor das hipóteses, perderia mais receita com o mercado ilegal do que pretende obter com a nova taxa.
Importa, contudo, sublinhar a ressalva da própria Corte: a cifra de 13 mil milhões deve ser tratada com cautela, já que a Comissão ainda carece de uma estimativa independente e fiável sobre a verdadeira dimensão do mercado ilícito no espaço europeu.
Do ponto de vista operacional, a tectônica do fenómeno está em mutação. Enquanto o contrabando transfronteiriço permanece relevante, grupos criminosos vêm reduzindo cadeias logísticas, aproximando a produção dos consumidores e implantando pequenas e médias unidades industriais de fabrico ilícito dentro da UE. Auditorias em Bélgica, Espanha, Polónia e Roménia identificaram sítios de produção em quase todos os Estados‑membros e grandes discrepâncias na capacidade das autoridades nacionais de responder ao fenómeno.
Exemplos documentados no relatório ilustram a mudança de escala: na Bélgica, uma fábrica clandestina contava com máquinas capazes de produzir cerca de 1 milhão de cigarros por hora. Em Espanha, a maior fábrica ilícita desmantelada até agora teve apreendidos 3 milhões de maços contrafeitos. Estes números afastam a narrativa de pequenos circuitos esporádicos e confirmam uma organização industrializada, com impacto direto nas receitas fiscais e na saúde pública.
«Estamos a dizer muito claramente à Comissão que deve melhorar o seu jogo», declarou Petri Sarvamaa, sublinhando áreas concretas para intervenção: reforçar o coordenação entre instituições, desenvolver metodologias que permitam estimativas reais da dimensão do problema, harmonizar a legislação fiscal e operacional entre os Estados‑membros e analisar de modo sistemático as lacunas existentes.
Do ponto de vista estratégico — e com a frieza de quem analisa um novo lance no tabuleiro — a Corte aponta para a necessidade de um projeto comum que funcione como alicerce sólido para a ação futura: sem uma visão integrada, os esforços dispersos da União correm o risco de fortalecer, inadvertidamente, a resiliência das redes criminosas e de fragilizar as próprias metas orçamentárias que a tributação pretende alcançar.
Para decisores e operadores, a recomendação é clara: harmonizar o quadro, investir em inteligência fiscal e penal e, sobretudo, construir estimativas independentes que orientem políticas coerentes. Sem isso, as próximas campanhas contra o tabaco caminharão mais como peças soltas do que como um movimento decisivo no tabuleiro europeu.

