Cannes 2026: nenhum filme italiano em competição, mas a presença ítalo-europeia se faz notar
Cannes 2026: nenhum filme italiano na competição principal, mas coproduções, atores e trilhas mostram presença ítalo-europeia no festival.
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Cannes 2026: nenhum filme italiano em competição, mas a presença ítalo-europeia se faz notar
Na 79ª edição do Festival de Cannes (12-23 de maio), a ausência de um título italiano na disputa pela Palma de Ouro poderia sugerir um apagão. Contudo, o espelho do nosso tempo revela nuances: a presença italiana não é totalmente nula — ela se manifesta em rostos, coproduções e trilhas sonoras que compõem o roteiro oculto da cena europeia.
Entre as pistas deixadas pelo cinema italiano está a participação do escritor Erri De Luca como intérprete em um dos filmes em competição: La Vie d'une Femme (A Woman's Life), dirigida pela francesa Charline Bourgeois-Tacquet. O filme acompanha a trajetória de Gabrielle (interpretada por Léa Drucker), uma chefe de cirurgia em crise profissional e pessoal, que se vê cada vez mais ligada à escritora que a observa para inspirar um livro, enquanto lida ainda com o agravamento do Alzheimer de sua mãe. No elenco também figuram Mélanie Thierrry e Charles Berling.
Outra presença italiana indireta surge em Fatherland, do polonês Pawel Pawlikowski, uma coprodução internacional que conta com a participação da italiana Our Films, dos produtores Lorenzo Mieli e Mario Gianani, via Mubi.
O papel institucional de destaque fica com a Rai Cinema, presente em três coproduções internacionais selecionadas. Na Seção Oficial em competição aparece o novo filme do francês Arthur Harari, L’Inconnue (A Desconhecida). Em Un Certain Regard estão Congo Boy, do congolês Rafiki Faria, e Séances de Minuit – Roma elastica, do francês Bertrand Mandico. Este último reúne um elenco cosmopolita com nomes como Marion Cotillard, Noémie Merlant, além de atrizes e atores italianos como Isabella Ferrari, Maurizio Lombardi e participações de prestígio de Ornella Muti e Franco Nero, entre outros.
Também na programação de Cannes Première está La Troisième Nuit, de Daniel Auteuil, cuja distribuição italiana ficará a cargo da Rai Cinema.
Um detalhe que ilumina como a presença italiana se infiltra nas camadas do festival é a autoria da música. A trilha original de L’Inconnue foi assinada pelo músico italiano Andrea Poggio, editada por Bathysphère Production e Edizioni Curci. Poggio descreve um processo de criação que durou cerca de um ano, alimentado pela colaboração com metade da banda Calibro 35, com Enrico Gabrielli e Tommaso Colliva responsáveis pela orquestração e produção das faixas. Vale lembrar que Poggio já havia colaborado com Harari em Onoda, apresentado em Cannes em 2021 na abertura de Un Certain Regard.
Se, em superfície, a bandeira italiana não tremula na competição principal, sob o verniz a contribuição italiana resiste: em coproduções, vozes, interpretações e reverberações sonoras. É uma presença que se espalha como ecos culturais — o cenário de transformação do cinema contemporâneo europeu, onde fronteiras criativas se dissolvem e a Itália continua a escrever pequenas, mas decisivas, linhas do roteiro coletivo.