Ligeti ressurge em Berlim: 'Le Grand Macabre' abre o Musikfest entre aplausos

Le Grand Macabre, de Ligeti, abre o Musikfest de Berlim em 28/08/2026: encenação semi-cênica, Collon à frente da orquestra finlandesa e aplausos calorosos.

Ligeti ressurge em Berlim: 'Le Grand Macabre' abre o Musikfest entre aplausos

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Ligeti ressurge em Berlim: 'Le Grand Macabre' abre o Musikfest entre aplausos

Por Chiara Lombardi — Em uma abertura que soou como um espelho do nosso tempo, Le Grand Macabre, de György Ligeti, inaugurou o Musikfest de Berlim em 28 de agosto de 2026, celebrando os 75 anos dos Berliner Festspiele. A apresentação, recebida com calorosos aplausos, trouxe ao palco a tensão entre farsa e tragédia que consagra esta obra como um dos ícones do século XX.

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A condução ficou a cargo de Nicholas Collon, que liderou a Orquestra Sinfônica da Rádio Finlandesa (Finnish Radio Symphony Orchestra) e o Coro de Câmara de Helsinque com notável precisão rítmica e brilho interpretativo. Collon soube acentuar o cenário apocalíptico e grotesco concebido por Ligeti, transformando o pavor pela aniquilação em um impulso vitalista e até jocoso — uma verdadeira reinterpretação do medo em força vital.

Na direção cênica, Frederic Wake-Walker explorou com inteligência a geometria da Grande Sala da Philharmonie: personagens que entravam e saíam de múltiplos níveis, circulações inesperadas e um uso do espaço que fez o palco parecer um pequeno universo em colapso. Essa encenação semi-cênica funcionou como um refrão visual da partitura, apontando para o que chamaria de “o roteiro oculto da sociedade” — um desconcertante balé entre caos e comédia.

Musicalmente, destacou-se especialmente a seção de percussão da orquestra finlandesa, cuja energia e precisão foram mencionadas com louvor pela crítica e pela plateia. Os timbres cortantes e os impulsos rítmicos serviram de motor para as atmosféricas ebsurdas passagens de Ligeti, confirmando o porquê desta obra resistir como um clássico moderno.

O significado de Le Grand Macabre permanece duplamente atual: é farsa e sátira, é grito e riso, e, como todo grande trabalho artístico, funciona como espelho cultural — o ecoir de medos coletivos transformados em invenção sonora. Neste sentido, a noite não foi apenas estreia: foi um lembrete de que a arte tem um papel de reframe da realidade, convertendo pânico em ironia e desespero em alento criativo.

Os Berliner Festspiele, que comemoram 75 anos, reafirmaram seu papel histórico como ponte entre Leste e Oeste e como organismo cultural híbrido: simultaneamente curadores de mostras no Martin-Gropius-Bau e produtores de espetáculos através de vários festivais. O Musikfest, que reúne músicos de todo o mundo, se confirma como um dos eventos principais deste calendário — um cenário de transformação onde repertório clássico e experimentação contemporânea dialogam.

Ao sair da Philharmonie, a sensação era de quem assistiu a um espetáculo que não apenas retrata o fim do mundo, mas o reinventa: a ópera de Ligeti surge como uma fábula moderna, um pequeno apocalipse que, por sua própria comicidade, nos devolve a vontade de persistir. Num tempo em que as narrativas coletivas se fragmentam, uma montagem assim funciona como um mapa — e também como aviso — sobre as formas que nosso medo pode tomar e as maneiras pelas quais a cultura responde a ele.

Em resumo, a abertura do Musikfest de Berlim com Le Grand Macabre foi um triunfo artístico, técnico e conceitual: um evento que honra a tradição dos Berliner Festspiele e reafirma a potência subversiva da música contemporânea.

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