20 anos do primeiro tweet: como o Twitter virou X e perdeu fôlego apesar de 550 milhões de usuários
Vinte anos do primeiro tweet: X tem ~550 milhões de usuários, mas perde popularidade entre desinformação, mudanças na verificação e queda no mobile.
RESUMO ✦
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20 anos do primeiro tweet: como o Twitter virou X e perdeu fôlego apesar de 550 milhões de usuários
Há exatamente 20 anos, em 21 de março de 2006, foi publicado o primeiro microtexto que deu origem a uma nova camada da infraestrutura comunicacional global. A mensagem de poucos caracteres — “Sto impostando il mio twttr” — foi escrita por Jack Dorsey e marcou o nascimento do que se tornaria Twitter, hoje rebatizado como X. O nome original, sem o "e", lembrava plataformas visuais da época como Flickr e expressava uma ambição: transformar o fluxo de pequenas mensagens num canal público permanente.
No espaço de alguns anos, a plataforma mudou a arquitetura da conversa pública. Em 2007 surgiram os hashtags, propostos por Chris Messina como um método de agregação de conteúdo; nesse momento o sistema já processava da ordem de 60.000 tweets por dia. Em 2017, a limitação de 140 caracteres foi ampliada para 280, ajustando a capacidade sintática das mensagens sem alterar a lógica do fluxo rápido de informação.
A identidade visual também passou por diferentes camadas de projeto. O pássaro que se tornaria ícone — Larry the Bird — foi comprado em 2006 por 15 dólares como parte de um stock de imagens e desenhado por Simon Oxley. Desde então recebeu retoques (Stone-Pascuzzo em 2010, e um redesenho minimalista por Grasser-Bowden-Waterbury em 2012) até a versão com perfil lateral e a asa formada por três círculos, que acompanhou a plataforma por anos.
Em 2023 a plataforma foi adquirida por Elon Musk por cerca de 44 bilhões de dólares e, sob nova direção, foi promovida a X, com um novo logo preto e ambições de virar uma “everything app”. A transição operacional foi profunda: cortes massivos de pessoal, alteração dos mecanismos de verificação — substituídos por flags pagos — e integração de inteligência artificial batizada de Grok. Essas mudanças reconfiguraram não só a interface, mas os protocolos de confiança que sustentam o sistema.
O resultado prático é ambivalente. A plataforma ainda soma cerca de 550 milhões de usuários, mas apresenta sinais claros de declínio de popularidade e de confiança: aumento da desinformação, maior incidência de discurso de ódio e perda de tração nos dispositivos móveis, que são o coração do ecossistema de redes sociais. Em termos de fluxo de informação, foi como substituir um comutador confiável por um nó instável numa rede crítica — as consequências incidem sobre mobilidade, opinião pública e segurança digital.
Em janeiro de 2026 observou-se, segundo levantamentos, uma promoção recorrente de conteúdos anti-imigrantes e de supremacia branca em 26 dos 31 dias do mês, além de posts de alto engajamento com teor provocativo — entre eles a frase que viralizou: “Next I’m buying Coca-Cola to put the cocaine back in”. A pessoalização do controle editorial e a monetização de verificações alteraram o equilíbrio entre moderação algorítmica e liberdade de expressão.
Da perspectiva europeia — e em particular italiana —, essa evolução não é mero espetáculo: ela afeta os alicerces digitais sobre os quais se organizam campanhas políticas, comunicação de emergência e os ecossistemas de dados urbanos. O que era um canal de microtextos tornou-se parte do sistema nervoso das cidades, trocando sinais que influenciam serviços, políticas e coesão social. A questão central, hoje, é técnica e institucional: como restaurar protocolos de confiança numa camada de infraestrutura que se distancia de normas públicas e muda conforme interesses privados?
Vinte anos depois do primeiro twttr, a história de Twitter — hoje X — é um estudo sobre como a arquitetura digital e as escolhas de governança moldam a utilidade social de uma plataforma. Resta à sociedade europeia decidir se pretende redefinir regras, exigir transparência nos algoritmos e proteger os fluxos críticos de informação que sustentam a vida pública.


