Estudo do MIT revela: o buraco na camada de ozônio começou em 1957 e foi impulsionado pelo tetracloreto de carbono
Estudo do MIT mostra que o desgaste da camada de ozônio começou em 1957, impulsionado pelo tetracloreto de carbono, décadas antes do buraco antártico.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Estudo do MIT revela: o buraco na camada de ozônio começou em 1957 e foi impulsionado pelo tetracloreto de carbono
Uma nova análise liderada pelo MIT e publicada na revista PNAS indica que o enfraquecimento da camada de ozônio começou décadas antes de ser identificado como o célebre “buraco do ozônio” sobre a Antártida. Segundo o estudo, o primeiro sinal estatisticamente detectável de perda de ozônio surgiu já em 1957, na estratosfera tropical, e teve como principal responsável o tetracloreto de carbono, um solvente industrial usado desde os anos 1930.
Os autores utilizaram um experimento contrafactual: simularem como teria sido possível observar a evolução do ozônio se os instrumentos de monitoramento atmosférico modernos já existissem no século XX. Com modelos climáticos sofisticados, reconstruíram a química atmosférica ao longo do Novecento e separaram os efeitos das atividades humanas das variações naturais, como erupções vulcânicas e eventos de El Niño.
Os resultados mostram que o primeiro sinal robusto de redução do ozônio apareceu em 1957 na alta estratosfera tropical — uma região onde a variabilidade natural é menor, o que facilita a detecção de alterações de origem antropogênica. Essa anterioridade surpreende porque a narrativa tradicional associa o fenômeno principalmente aos CFC (clorofluorcarbonetos) e à observação do buraco antártico identificada em 1985.
Para os pesquisadores, a descoberta muda a escala temporal do impacto humano: o tetracloreto de carbono, usado amplamente como solvente para lavagem a seco e desengraxe industrial, já acumulava concentrações crescentes na atmosfera desde os anos 1940 — evidência que também aparece nas análises de carotes de gelo polar. Os CFC, por sua vez, só se tornaram de uso massivo mais tarde, mas também contribuíram para a destruição do ozônio.
“Nos livros aprendemos que foram os CFC que provocaram o afinamento da camada de ozônio”, afirmou Jian Guan, autor principal e doutorando no Departamento de Earth, Atmospheric and Planetary Sciences do MIT. “O fato de o tetracloreto de carbono ter causado efeitos detectáveis já nas décadas de 1950 foi inesperado.”
Susan Solomon, referência mundial em estudos do ozônio e uma das pioneiras que demonstraram o papel dos CFC na destruição do ozônio antártico, também se disse surpresa: “Que a redução pudesse ter começado no fim dos anos 1950 me surpreende. O estudo mostra a importância de continuar a monitorar a atmosfera para entender sua resposta e recuperação.”
Na década de 1980, trabalhos de Mario Molina e de Susan Solomon foram fundamentais para demonstrar que o cloro liberado pelos CFC destrói moléculas de ozônio na estratosfera — evidências que impulsionaram ações políticas globais como o Protocolo de Montreal, de 1987. A nova análise do MIT não contradiz esse quadro, mas acrescenta uma camada temporal e causal: a degradação do ozônio já estava em curso, silenciosa, como uma corrosão invisível em um alicerce industrial que só veio a ser notada décadas depois.
Do ponto de vista prático, o estudo reforça duas lições de infraestrutura ambiental e de dados: primeiro, que emissões antigas podem deixar marcas duradouras no sistema atmosférico, análogas ao desgaste lento de uma rede elétrica; segundo, que a capacidade de detectar essas mudanças depende diretamente da densidade e da qualidade dos sensores — o sistema nervoso das nossas cidades e da nossa ciência precisa de monitoramento contínuo e robusto para reagir a tempo.
Em suma, a pesquisa do MIT adiciona precisão histórica e química ao entendimento do problema: o dano ao escudo de ozônio não começou apenas quando o buraco antártico foi registrado em 1985, mas décadas antes, impulsionado por um composto industrial menos lembrado nos livros-texto. A vigilância atmosférica contínua e a modelagem integrada permanecem essenciais para gerir a recuperação desse alicerce vital da biosfera.