Cão das orelhas curtas: estudo revela que Atelocynus microtis é mais comum na Amazônia do que se pensava

Estudo com quase 25 anos de câmeras-trampa mostra que o cão das orelhas curtas (Atelocynus microtis) é mais comum na Amazônia e depende de florestas intactas.

Cão das orelhas curtas: estudo revela que Atelocynus microtis é mais comum na Amazônia do que se pensava

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

Cão das orelhas curtas: estudo revela que Atelocynus microtis é mais comum na Amazônia do que se pensava

Por Riccardo Neri — Uma nova pesquisa publicada em Neotropical Biology and Conservation reconfigura a percepção sobre o cão das orelhas curtas (Atelocynus microtis), tradicionalmente tratado como um dos menos conhecidos e mais enigmáticos carnívoros da Amazônia. Com base em quase 25 anos de monitoramento por câmeras-trampa entre Bolívia e Peru, a equipe coordenada por Robert Wallace, com Gustavo Ayala, M.E. Viscarra e outros, reuniu a maior base de imagens já obtida para a espécie e descreve sua distribuição, comportamento e preferências de habitat.

Os pesquisadores compilaram cerca de 500 registros e realizaram 34 campanhas intensivas com armadilhas fotográficas, totalizando 594 eventos fotográficos independentes — um conjunto sem precedentes dentro do alcance do animal nas regiões do Greater Madidi-Tambopata e dos Llanos de Moxos. Segundo os autores, a virada veio com o uso sistemático de tecnologias de monitoramento remoto, que funcionam como um tipo de alicerce digital para a ecologia de campo: sensores que registram o fluxo de vida onde a presença humana é limitada.

As imagens confirmam descrições morfológicas já conhecidas: pelagem escura, variando do acinzentado ao marrom-avermelhado, cabeça relativamente grande, pernas curtas, orelhas muito pequenas e arredondadas e cauda longa e espessa. Um traço anatômico destacado pelo estudo é a presença de patas parcialmente palmadas — uma singularidade entre os canídeos amazônicos que sugere adaptações específicas ao solo e à dinâmica hídrica da floresta.

Ao contrário da aura quase mitológica em torno da espécie, os dados indicam que o cão das orelhas curtas não é tão raro quanto se supunha. Estimativas derivadas das câmeras-trampa apontam para densidades que podem alcançar aproximadamente 15 indivíduos por 100 km². Os autores observam que, embora a espécie permaneça difícil de avistar diretamente, ela pode ser mais abundante que grandes predadores como a onça-pintada, ainda que menos frequente que carnívoros de porte médio como o jaguatirica.

Do ponto de vista comportamental, o estudo mostra predominância de atividade diurna, com pico entre as 6h e o meio-dia. Em termos de habitat, há uma clara preferência por terra firme — áreas elevadas e distantes de cursos d'água, com densa cobertura vegetal contínua. Essa especialização ecológica funciona como um elo com a estrutura da paisagem: onde o mosaico florestal permanece intacto, a espécie encontra seus recursos e refúgios; onde a cobertura se fragmenta, suas chances de persistência caem.

Os resultados também enfatizam a importância das áreas protegidas. A abundância relativa foi significativamente maior dentro de unidades de conservação nacionais, o que reforça o papel das políticas de proteção territorial como pilares na infraestrutura de conservação — análogos às áreas protegidas que mantêm redes vitais em ecossistemas complexos. Para pesquisadores e gestores, a mensagem é direta: preservar a continuidade da floresta amazônica é crucial para a sobrevivência de espécies especializadas como Atelocynus microtis.

Este trabalho exemplifica como camadas de inteligência remota e monitoramento sistemático podem revelar padrões ocultos na vasta malha da floresta tropical, tornando visíveis, em imagens e números, espécies que a percepção humana pouco alcança. A implicação prática é clara: investir em tecnologias e em proteção de habitat equivale a reforçar os alicerces que sustentam a biodiversidade amazônica.