Palantir e o manifesto em 22 pontos: a proposta de substituir a democracia por tecnologia preditiva

Palantir publicou um manifesto em 22 pontos defendendo software como poder; Michele Mezza analisa riscos à democracia e propostas de resposta pública.

Palantir e o manifesto em 22 pontos: a proposta de substituir a democracia por tecnologia preditiva

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Palantir e o manifesto em 22 pontos: a proposta de substituir a democracia por tecnologia preditiva

Em 18 de abril, a empresa de análise de dados Palantir publicou um documento em 22 pontos que, em poucas semanas, somou cerca de 32 milhões de visualizações e foi amplamente interpretado como um manifesto político. Fornecedora de plataformas de análise para exércitos, agências de inteligência e polícias ao redor do mundo, a companhia colocou na arena pública propostas que defendem um papel decisivo do software na organização do poder estatal — uma ideia que reacende debates sobre democracia, soberania e controle tecnológico.

Conversei com o jornalista e pesquisador Michele Mezza, autor do recente livro Guerre in Codice — come le intelligenze artificiali resettano la democrazia (Donzelli), para interpretar o alcance desse texto. Mezza descreve o episódio como «uma nova cena antropológica»: não tanto pela novidade histórica da intervenção corporativa na vida pública, mas pela franqueza com que Palantir expõe propostas que visam, de fato, substituir processos políticos por mecanismos de decisão algorítmica.

Segundo Mezza, a intervenção é parte de uma longa história em que empresas moldaram não apenas mercados, mas práticas sociais e governança. Ele recorda que, no século XX, as grandes indústrias forjaram formas de organização social — o chamado fordismo — e que, no final do século XIX nos EUA, emergiu o movimento do "partido dos engenheiros", que defendia formas tecnocráticas de governo. Na Itália, o professor relembra também a experiência olivettiana dos anos 1950, quando uma paternalidade industrial foi convertida em um projeto mais participativo na esfera local.

O que diferencia o documento da Palantir é, para Mezza, o objetivo explícito: transformar a capacidade técnica — a acumulação de algoritmos, dados e plataformas — em hard power. A discussão não é apenas sobre quem detém maior influência, mas sobre a redefinição da própria instituição do Estado: «Quando a força de um Estado passa a coincidir com o código produzido por algumas empresas privadas, muda a ideia de soberania», observa o pesquisador. A analogia histórica é útil: assim como a imprensa consolidou linguagens políticas e fortaleceu o Estado na era moderna, hoje o código e as plataformas digitais se tornam alicerces invisíveis do poder.

Mezza recorre também à obra de Carl Schmitt: a legitimação do Estado via proclamação de exceção e emergência. A novidade tecnológica é que o estado de exceção pode ser automatizado, monitorado e escalado por plataformas que identificam riscos e definem intervenções com base em predições. Isso levanta perguntas fundamentais sobre responsabilização, transparência e limites democráticos: quem audita os modelos? quem define os critérios de risco? quem garante a contestabilidade das decisões automatizadas?

Do ponto de vista da soberania democrática, as implicações são múltiplas. A dependência de tecnologias proprietárias concentra poder e reduz a capacidade do Estado de configurar políticas públicas de forma independente. Além disso, a operacionalização de "poder duro" via software pode legitimar práticas de vigilância e gestão social que escapam aos controles legislativos tradicionais.

Como responder a esse desafio? Mezza e outros especialistas defendem medidas pragmáticas: fortalecer capacidades públicas de desenvolvimento e auditoria de software, exigir transparência algorítmica em contratações estatais, políticas de dados que preservem direitos fundamentais e mecanismos de governança participativa para decidir onde a automatização é aceitável. Em linguagem de engenheiro de sistemas: reconstruir alicerces digitais públicos e interoperáveis, evitar dependências monolíticas e introduzir camadas de verificação que tornem os algoritmos auditáveis.

Este episódio não é um aviso apocalíptico, mas um chamado técnico e político. O documento de Palantir atua como um espelho: mostra que o futuro próximo da governança será contestado nas camadas de código, nas arquiteturas de dados e nas escolhas de infraestrutura. Cabe às democracias europeias — e à Itália em particular — decidir se tratam essas camadas como meros serviços contratáveis ou como parte do sistema nervoso das cidades, digno de soberania, regulação e responsabilidade pública.