Greenpeace: mares italianos em alerta — calor recorde chega a 40 metros de profundidade
Relatório de 2025 da Greenpeace revela calor recorde nos mares italianos, com anomalias até 40 m e danos a corais e gorgônias.
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Greenpeace: mares italianos em alerta — calor recorde chega a 40 metros de profundidade
Por Alessandro Vittorio Romano — O ritmo lento do Mediterrâneo, esse pulmão azul que respira histórias e estações, vem sendo perturbado por um calor que não respeita fronteiras nem profundidades. O relatório 2025 do projeto Mare Caldo da Greenpeace Itália revela que o aquecimento não é mais um fenômeno limitado à superfície: foram detectadas anomalias térmicas persistentes até cerca de 40 metros de profundidade em estações monitoradas ao longo do país.
Os dados foram colhidos em 14 estações de acompanhamento distribuídas pela costa italiana, 13 delas situadas em Áreas Marinhas Protegidas, graças a termômetros subaquáticos e monitoramentos periódicos. A campanha contou com o apoio científico do DISTAV (Universidade de Génova), do OGS e do Departamento de Ciências Biomoleculares da Universidade de Urbino.
Enquanto 2026 já registra recordes globais de temperatura dos mares, as medições de 2025 já apontavam sinais alarmantes no Mediterrâneo. Em todas as 14 áreas estudadas o padrão se repetiu: episódios prolongados de calor, que atingiram camadas mais profundas da coluna de água. Como descreve o relatório, o Mediterrâneo está mudando rápido — e o efeito não é mais uma pele aquecida, mas uma onda que penetra as raízes dos ecossistemas marinhos.
O pico da anomalia superficial foi registrado na Sardenha, na Área Marinha Protegida da Ilha de Asinara, com uma diferença de até +3,5 °C acima da climatologia entre final de maio e julho de 2025, durante uma onda de calor de 41 dias. Outras anomalias significativas aconteceram nas AMP de Capo Carbonara e Tavolara (Sardenha) com +3,46 °C; na AMP de Capo Milazzo (Sicília) com +2,94 °C; e na AMP do Plemmirio (Sicília) com +2,71 °C.
Parte desse calor acumulado na superfície foi conduzido para as camadas mais baixas pelo mesclamento da coluna de água provocado pelos ventos, levando a temperaturas de até 25 °C a 30–40 metros de profundidade. Essa transferência equivale a um estresse térmico direto sobre comunidades que, até aqui, eram protegidas pelo frescor das águas profundas.
Nos monitoramentos biológicos realizados em 2025 na Ilha d'Elba, na AMP da Asinara e na AMP de Torre Guaceto, foram observados impactos importantes: necroses e sbiancamento (branqueamento) em espécies vulneráveis, como a gorgónia amarela Eunicella cavolini e o coral Cladocora caespitosa. Ao mesmo tempo, registra-se a expansão de espécies termófilas e até de espécies alienes — uma troca de guarda que altera a textura e a resiliência dos fundos rochosos.
Como guardião sensível das paisagens marinhas, lembro que essas mudanças impactam não só a biodiversidade, mas também a vida cotidiana costeira: são as raízes do bem-estar local que sofrem. O mar que conhecemos está respirando diferente — e cabe a nós acompanhar essa respiração, cuidar das áreas protegidas e repensar práticas que aceleram o aquecimento.
O relatório do Mare Caldo é um chamado: medir, observar e agir. Porque quando o calor desce aos abismos, é um aviso de que o ciclo das estações e o tempo interno das comunidades precisam de atenção urgente.