Somos um país de 'musiquinhas' enquanto lá fora há a morte — ao menos deem-nos artistas com coragem

Debate sobre artistas e compromisso político: exigimos coragem de vozes públicas, não retórica confortável. A leitura jornalística de Giulliano Martini.

Somos um país de 'musiquinhas' enquanto lá fora há a morte — ao menos deem-nos artistas com coragem

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Somos um país de 'musiquinhas' enquanto lá fora há a morte — ao menos deem-nos artistas com coragem

Por Giulliano Martini — A discussão sobre o papel do artista na esfera pública voltou a ferver depois das críticas dirigidas a Francesco De Gregori. O cerne do debate é simples e direto: quando a realidade exige posicionamento, a sociedade precisa de artistas que assumam riscos reais, e não de retóricas confortáveis que soem bem em salões.

No centro da controvérsia está a canção "Generale", clássica e reconhecida por sua qualidade poética. A leitura crítica que se impõe, porém, é que a poesia e a sensibilidade não substituem o compromisso vivido. Quando uma peça simbólica de vestuário ou de linguagem tem uma carga política definida, utilizá‑la como desculpa para manter distância equivale a uma escolha: fica bem na consciência, sem implicar consequências concretas.

Além disso, o debate confrontou figuras com diferentes perfis midiáticos. Por que um apresentador televisivo costuma ter mais alcance que um filósofo? A resposta não é misteriosa: alguns têm plateias. Gostaríamos que intelectuais clássicos, como Luciano Canfora, alcançassem estádios e milhões de seguidores, mas se o público segue artistas como Ghali, faz sentido que sejam eles a transmitir mensagens engajadas.

As acusações de oportunismo a quem se posiciona — levantadas em episódios anteriores envolvendo Fedez, Marracash e outros — não podem virar uma desculpa para desqualificar o protagonismo popular. Em debates externos, Marracash distinguiu cultura de "apropriação cultural" e criticou posturas monetizáveis; aqui, entretanto, a narrativa assume os ouvintes como ingênuos. O público tem ferramentas para contextualizar escolhas e não é automaticamente persuadido por singles de lançamento.

Há quem argumente que é preferível agir tarde do que nunca. Concordo em parte: quem chega atrasado corre o risco de diluir lutas já em curso; por outro lado, condenar o engajamento recente sem reconhecer sua utilidade prática é desperdício de energia. O contraste fica claro ao comparar posturas oportunistas com artistas que fazem ativismo sem buscar retorno financeiro — exemplo citado com frequência é Fiorella Mannoia, que se empenha publicamente sem transformar o gesto em mercadoria.

Também cabe um recorte institucional: se fôssemos um país como a Espanha, a exigência por campanhas públicas e declarações firmes seria menor, porque o próprio governo — representado por figuras como Pedro Sánchez — canaliza descontentamento em políticas e atos. Na Itália, a percepção de timidez do governo alimenta a busca por vozes que preencham o vácuo comunicacional. Não buscamos gritos vazios como os de ocasião; buscamos sinais claros de que quem está em evidência não ignora a urgência dos fatos.

Para fechar, evocando a tradição literária: no oitavo canto do Inferno, a passagem de Dante por Filippo Argenti ilustra a tensão entre ira gratuita e ira justificada — conceito trabalhado por Tomás de Aquino. A ira que move cidadãos e artistas pode ser legítima quando nasce de uma injustiça palpável; torna‑se contraproducente quando se reduz a espetáculo.

O país que descrevemos — um lugar de música ligeira enquanto o mundo enfrenta perigos — tem direito a pedidos diretos: não exigimos santidade dos intérpretes, exigimos coragem. Que os artistas com público assumam compromissos claros, que o debate seja pautado por fatos e consequências, e que a sociedade possa contar com vozes que, além de belas, sejam responsáveis.