Juiz de Vicenza determina: quadro atribuído a Van Gogh não é falso; obra pode valer até €150 milhões
Juiz de Vicenza absolve proprietários e devolve 'Les Meules'; quadro atribuído a Van Gogh pode valer até €150 milhões se autenticado.
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Juiz de Vicenza determina: quadro atribuído a Van Gogh não é falso; obra pode valer até €150 milhões
Vicenza — Em decisão recente, o Tribunal de Vicenza absolveu dois proprietários de acusações de falsificação relativas ao quadro identificado como Les Meules (I Covoni, 1888), determinando a restituição da obra aos donos e afastando a necessidade de destruição prevista em lei para obras consideradas falsas. A sentença do juiz Filippo Lagrasta reconheceu que "o fato não constitui crime" e validou a boa-fé dos responsáveis, encerrando um capítulo jurídico que durou anos.
O quadro foi adquirido em 2007 por mil euros junto à empresa Lanvalley Investments Inc. pelos vicentinos Umberto Ferrigato (falecido) e Cipriano Tessarolo. Atualmente, os direitos estão distribuídos entre Cipriano Tessarolo (65%) e Maria Antonietta Gasparoni (35%), viúva de Ferrigato. A obra permaneceu apreendida nos depósitos do Comando Carabinieri Tutela Patrimonio Culturale em Roma após o início do processo, em 2019, e aguardava decisão judicial sobre seu destino.
Segundo o advogado de defesa, Luigi Ravagnan, que atuou no caso juntamente com o colega Giuseppe Melzi, a sentença foi clara ao afastar a caracterização de falsificação e a consequente destruição do quadro. "O juiz salvou a obra da sua destruição e absolveu os dois profissionais vicentinos, reconhecendo a boa-fé deles", disse Ravagnan em declaração à imprensa.
A questão da autenticidade permanece complexa. Apesar do envolvimento de estudiosos de peso — entre eles nomes ligados ao Van Gogh Museum — a confirmação definitiva não é trivial. Um ponto técnico chama atenção: o uso de um tom de vermelho cadmium nos telhados de uma casa ao fundo, pigmento cuja disponibilidade em 1888 é contestada. Peritos ressaltam duas hipóteses técnicas plausíveis: trata-se de uma pré-visualização de produtos fornecidos a artistas consagrados na época ou é resultado de uma intervenção posterior, como uma restauração.
Ravagnan reforça que o Van Gogh Museum de Amsterdã nunca afirmou categoricamente que o quadro seja falso. A instituição teria declarado, segundo a defesa, que "no momento não o considera original, mas não exclui a possibilidade" de o reconhecer futuramente como obra autêntica. Essa posição mantém a questão em aberto e aponta para a necessidade de novas análises técnico-científicas aprofundadas.
Quanto ao valor, especialistas ouvidos no contexto do processo estimam que, se reconhecido pelo museu, o quadro poderia alcançar entre €100 e €150 milhões no mercado internacional de arte. Para os proprietários, a batalha jurídica tem sido também uma disputa econômica: os custos com perícias, contraperícias e diligências técnicas representam uma fração pequena diante do eventual valor da obra — possivelmente entre 3% e 5% do estimado —, mas indispensável para tentar obter a certificação final.
O desfecho judicial concede aos proprietários a possibilidade de levar adiante processos de autenticação sem o risco imediato de perda da peça. O próximo passo técnico exigirá análises físico-químicas detalhadas, confronto com o arquivo documental e o posicionamento definitivo do Van Gogh Museum e de outros centros de referência. Até lá, a obra permanece um enigma técnico-jurídico que ilustra, na prática, a tensão entre prova científica, história da arte e regras penais destinadas a proteger o patrimônio cultural.
Apuração sob o critério de reportagem pura: cruzamento de fontes judiciais, consultas técnicas e declarações dos defensores. A realidade traduzida é esta: a peça voltou aos proprietários, a destruição foi suspensa e a pergunta sobre sua autenticidade segue em aberto — com potencial econômico e patrimonial consideráveis.