Abertura triunfal do Festival del Maggio: 13 minutos de aplausos para The Death of Klinghoffer
Abertura triunfal do 88º Festival del Maggio com 13 minutos de aplausos para The Death of Klinghoffer, dirigida por Luca Guadagnino e regida por Lawrence Renes.
RESUMO ✦
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Abertura triunfal do Festival del Maggio: 13 minutos de aplausos para The Death of Klinghoffer
Treze minutos de aplausos, ovacionado elenco, diretor e maestro sob prolongadas aclamações até a chamada standing ovation: assim foi a inauguração da 88ª edição do Festival del Maggio Musicale Fiorentino, um início que se apresentou como espelho do nosso tempo e também como um desafio estético e ético.
Em cena, The Death of Klinghoffer, a ópera contemporânea de John Adams, que marcou o debut de Luca Guadagnino nas encenações florentinas e teve no pódio o maestro Lawrence Renes, à frente da Orquestra e do Coro do Maggio. A montagem retomou um episódio histórico sensível: o sequestro do transatlântico Achille Lauro em 7 de outubro de 1985, e o assassinato de Leon Klinghoffer, cidadão americano de origem judaica, em cadeira de rodas, que viajava para celebrar um aniversário de casamento.
Nos dias frenéticos que seguiram o crime, as relações diplomáticas entre Itália e Estados Unidos foram postas à prova, culminando na conhecida crise de Sigonella — um ponto de inflexão que a ópera, em sua tessitura dramática, reflete sem oferecer respostas fáceis. A escolha de levar esta obra ao palco dialoga com a ideia de que o teatro lírico pode e deve confrontar «os grandes temas do nosso tempo», como observou o sovrintendente Carlo Fuortes, evocando a responsabilidade pública da arte.
A obra, estruturada em prólogo e dois atos, apoia-se no libretto-poema da poetisa Alice Goodman — presente na plateia — e estreou em 1991 no Théâtre de la Monnaie, em Bruxelas. Na Itália tinha sido encenada apenas em 2002, nas cidades de Ferrara e Modena; nesta noite florentina também esteve presente Deborah O’Grady, esposa do compositor.
O elenco reuniu vozes de destaque: Daniel Okulitch como The Captain; Laurent Naouri no papel de Leon Klinghoffer; Susan Bullock como Marylin Klinghoffer; Marina Comparato nas personagens Swiss Grandmother e Austrian Woman; Joshua Bloom como Rambo, líder dos terroristas; Andreas Mattersberger como The First Officer; Roy Cornelius Smith interpretando Molqi; Levent Bakirci no papel de Mamoud; Janetka Hoșco como a British dancing girl; e Marvic Monreal como Yazmir. O maestro do coro foi Lorenzo Fratini; a coreografia, de Ella Rothschild; figurinos, de Marta Solari; iluminação, de Peter van Praet; e o sound design, de Mark Grey.
Na leitura de Guadagnino, a peça não se limita a reproduzir fatos: ela reconstrói camadas de memória coletiva, produzindo um reframe da realidade que obriga o espectador a olhar — como num close-up cinematográfico — as tensões entre vítimas, perpetradores e as narrativas políticas que os cercam. A música incisiva de Adams, combinada ao texto de Goodman, cria uma semiótica do trauma que reverbera além da cena.
A recepção calorosa do público, traduzida em longos aplausos e uma sentida ovação final, confirma que o espetáculo funcionou como um espelho cultural: provocou emoção, debate e, sobretudo, a sensação de que o teatro pode ser um espaço onde se redesenha o roteiro oculto da sociedade. Em tempos em que a memória histórica é frequentemente contestada, montar obras como The Death of Klinghoffer é insistir na arte como fórum público, um cenário de transformação onde a narrativa cultural se negocia a cada noite.