Aldo Giannuli reinterpreta a origem da República: “Uma guerra civil latente entre 1945 e 1948”

Aldo Giannuli releitura da fundação da República: entre 1945 e 1948, uma 'guerra civil latente' que moldou a Itália republicana.

Aldo Giannuli reinterpreta a origem da República: “Uma guerra civil latente entre 1945 e 1948”

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Aldo Giannuli reinterpreta a origem da República: “Uma guerra civil latente entre 1945 e 1948”

Por Chiara Lombardi — Em Ombre sulla Repubblica. 1945-1948: una guerra civile latente, lo storico Aldo Giannuli propõe um olhar que transforma o período constituinte italiano em um espelho do nosso tempo: não apenas uma transição institucional, mas um roteiro de poderes em disputa que desenhou os contornos da futura Repubblica. Publicado pela Ponte alle Grazie (462 páginas), o livro recupera o triennio 1945-1948 como chave para entender boa parte da história republicana italiana.

Giannuli sustenta a tese de que a Itália do pós-guerra viveu uma guerra civil latente: uma tensão permanente que, sem explodir em conflito aberto, atravessou instituições, partidos, serviços de segurança, relações internacionais e o tecido social. Essa tensão evoluiu para o que o autor chama de guerra civile fredda, paralela à Guerra Fria global, e destinada a marcar a Primeira República muito além de 1948.

O livro percorre os grandes episódios que compõem esse cenário: a passagem da monarquia à República, o papel da Assemblea Costituente, o referendum istituzionale, a formação do sistema de partidos, a reorganização dos serviços secretos, a tragédia de Portella della Ginestra, o suposto golpe de 1947, as relações entre Pio XII, os Estados Unidos e a Democrazia Cristiana (DC), até o nó oferecido pelo Partito Comunista Italiano (PCI) de Togliatti.

Adotando um método transdisciplinar, Giannuli entrelaça história política, direito constitucional, sociologia dos partidos, história econômica, história da inteligência e relações internacionais. Sua proposta é desafiar a historiografia que reduz o passado a um tribunal moral: a intenção é “entender todos e não fazer concessões a ninguém”, examinando com o mesmo rigor atores políticos distantes e figuras moralmente controversas.

Um ponto central do ensaio é a ideia de Constituição material da República: além do texto formal, um sistema político-econômico foi sedimentado por um equilíbrio entre partidos, setores financeiros, aparatos do Estado e a colocação internacional da Itália. Esse pacto garantiu estabilidade e evitou destinos autoritários à moda de algumas democracias europeias, mas gerou também imobilismo, continuidades profundas, corporativismo, baixa mobilidade política e um dualismo Norte-Sul ainda não resolvido.

Na avaliação de Giannuli, DC e PCI desempenharam papéis ambivalentes: ambos contribuíram para impedir uma guerra civil aberta e manter a integridade constitucional do país, ao mesmo tempo em que participaram da construção de um sistema bloqueado. De Gasperi, na leitura do autor, percebeu mais claramente do que Togliatti a lógica da democracia ocidental competitiva e trabalhou para formar um bloco moderado-conservador; Togliatti, embora político habilidoso, teria cometido erros estratégicos decisivos na fase constituinte.

Ao celebrar o século XX italiano como um filme de sombras e luzes, Giannuli convida a reabrir o debate sobre as origens do Estado democrático no ano do 80º aniversário da República. Este ensaio não é apenas uma reconstrução factual: é um exercício de semiótica política, um reframe da realidade que nos força a perguntar por que certas estruturas persistem. Ler esse livro é como revisitar os bastidores de um clássico cinematográfico — descobrir os cortes, as cenas descartadas e o roteiro oculto que moldou a narrativa pública.

Para o leitor interessado em memória política, inteligência e as tramas internacionais do pós-guerra, o estudo de Giannuli oferece uma lente fundamentada e inquietante: a ideia de uma guerra civil latente nos obriga a repensar o passado e a interrogar o presente.