Alessandro Martire e o piano 'Waves': quando a música transforma paisagens em palcos

Alessandro Martire leva seu piano 'Waves' a paisagens extremas — do Lago de Como a Frasassi — e transforma lugares em palcos sonoros.

Alessandro Martire e o piano 'Waves': quando a música transforma paisagens em palcos

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Alessandro Martire e o piano 'Waves': quando a música transforma paisagens em palcos

Por Chiara Lombardi — O pianista e compositor comasco Alessandro Martire, 33 anos, vem compondo um roteiro performático que é ao mesmo tempo cartão-postal e investigação cultural: levar o piano a cenários extremos e derivados da memória coletiva. Do Charyn Canyon no Cazaquistão às formações rochosas dos Pinnacles na Austrália, das gárgulas do Duomo de Milão às profundezas da gruta de Frasassi, Martire escreve uma cartografia sonora onde o instrumento atua como espelho do nosso tempo.

Seu quinto álbum, Places of Music - Postcards from Soul (Warner), foi apresentado em Londres e funciona como um álbum de inquietações geográficas: «São postais interiores destinados a dar voz aos lugares», diz ele, referindo-se a peças como Ice Hills, construída sobre sons de cascatas e gêiseres da Islândia e acompanhada por um vídeo em que o cenário vira palcoscenico. A semiótica do viral aqui se mistura com a paisagem — cada local inspira e regrava a música.

Nascido em Como e formado no College of Music de Berklee, Martire escolheu uma vida em escala humana: mora em Pellio, uma aldeia de mil habitantes na Val d’Intelvi, às margens do seu lago natal. Foi durante a pandemia que nasceu seu instrumento emblemático, o piano aerodinâmico batizado de Waves. «Sou curioso por design», explica; a forma do piano evoca ondas, natureza primitiva e viagem. Com marceneiros, arquitetos e artesãos disponíveis no isolamento, ele transformou uma ideia em objeto e inaugurou o instrumento com um concerto flutuante no Lago de Como.

A plataforma espejada que acompanha esse projeto também nasceu da necessidade de reinventar o palco. «Não foi simples, queria que espelhasse», recorda Martire. O resultado já passou por situações logísticas extremas: Waves foi transportado de helicóptero ao Monte Rosa, a mais de três mil metros, tocou sobre o gelo do lago de Sankt Moritz em 2021 e foi desmontado para entrar nas profundezas de Frasassi, trezentos metros abaixo do solo, entre estalactites e estalagmites.

Mais do que um fetiche performático, o projeto tem um recado ambiental: ao deslocar o piano para esses territórios, Martire procura chamar atenção ao respeito pela natureza. O esforço logístico é imenso, por isso ele já planeja construir outros Waves que permanecerão em museus de design nos Emirados e nas Américas.

Além da circulação musical, Martire é empreendedor cultural: aos 22 anos fundou a associação Infinity Sound e, em 2019, criou o Lake Endless Joy Festival. A fundação organiza, todo verão, ações em que música e esporte atuam como linguagens de inclusão — outro fragmento do roteiro ético que sustenta seu trabalho.

O concerto de 26 de março no ADI Design Museum de Milão já está esgotado, e a trajetória de Martire reforça uma ideia que me fascina: quando um artista transporta um objeto cotidiano para um cenário inusitado, revela o roteiro oculto da sociedade e nos convida a ouvir o lugar como se fosse uma partitura. Em tempos de imagens rápidas, seus recitais são postais que exigem escuta.