Ancona: a cidade onde o sol nasce e se põe sobre o mar — um roteiro de memória e marés
Annalisa Trasatti revela Ancona: porto, Acropoli e 'Porta d'Oriente' em imagens e reflexões sobre memória, natureza e mar.
RESUMO ✦
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Ancona: a cidade onde o sol nasce e se põe sobre o mar — um roteiro de memória e marés
Annalisa Trasatti, com delicadeza de quem conhece cada pedra do bairro onde nasceu, assina um olhar íntimo sobre Ancona no livro 'Ancona' (Claudio Ciabochi editore). A capa reúne a imagem solitária e alta da catedral românica de San Ciriaco erguida sobre o mar Adriático — uma fotografia que é, por si só, um manifesto: aqui o horizonte não é apenas paisagem, é personagem.
Nascida e residente no rione histórico de Capodimonte e atual Coordenadora dos serviços do Museo Tattile Statale Omero — excelência italiana onde 'é proibido não tocar' — Trasatti transforma o folhear do álbum em um passeio sensorial. As páginas em papel couché exibem fotografias que celebram as riquezas de Ancona e ecoam um argumento central: a cidade é ao mesmo tempo porta e mirante para o Oriente.
Como observadora cultural, Trasatti lembra que Ancona guarda um gosto oriental, uma verdadeira Acropoli, recordando por que as civilizações antigas escolhiam lugares altos para seus templos. Ela evoca a frase de Casper, pai de Johann Wolfgang Goethe: 'Ascesi fino alla Cittadella che domina la città, vedemmo la più bella veduta del mondo e così fu pagata la mia fatica' — traduzida aqui como uma epígrafe de admiração e pagamento da jornada pelo merecido panorama.
O livro também recupera o olhar do britânico Edward Hutton, que via em Ancona traços espanhóis e um ar de mística oriental: cidade viril, imperiosa, capaz de oferecer momentos de alegria e um abandono sonolento que a torna ao mesmo tempo exótica e familiar. Essa mistura de tons europeus e orientais é o roteiro oculto que Trasatti segue: Ancona como Porta d'Oriente, trampolim para mundos distantes. Foi daqui que o imperador Trajano e São Francisco partiram rumo ao Oriente; por séculos, gregos, armênios, judeus e eslavos conviveram e deixaram marcas.
Para Trasatti, Ancona é uma cidade 'anárquica' — nomenclatura poética que descreve a vitalidade urbana onde a natureza cresce resistente, quase querendo cobrir a História e os monumentos como se curasse feridas. É um quadro de camadas: pedras que resistem, plantas que invadem, memórias que resistem à ordem simples do mapa.
O olhar de Pier Paolo Pasolini também retorna no texto, lembrando a cidade sem largos litorais mas cheia de pontas e ápices, com a catedral no topo que faz a cidade 'dar' para dois mares. Pasolini descreve a sua Ancona noturna, com a lua sobre o mar e o silêncio do cemitério dos judeus — imagens que, no livro de Trasatti, viram contraponto de beleza e abandono.
O trabalho de Trasatti, mais do que um guia visual, opera como um espelho do nosso tempo: mostra como uma cidade portuária guarda no ensejo das suas pedras a semiótica das migrações, das memórias comunitárias e do entrelaçar das histórias. Ler 'Ancona' é aceitar um convite à contemplação lenta, ao reframe da realidade urbana, onde cada foto e cada parágrafo funcionam como um pequeno set de cinema que nos pede para olhar além do cartão-postal.
Em suma, Ancona — por trás da urgência contemporânea — permanece um lugar de encontros: entre oriente e ocidente, entre passado e presente, entre o gesto humano e a natureza que insiste em voltar. O livro de Trasatti documenta essa convivência com a elegância de quem sabe que uma cidade é, antes de tudo, um arquivo de afetos.


