Por que vemos guerra e loucura? O legado do Anti-Édipo entre desejo, IA, ansiedade e crise do trabalho

Como o Anti-Édipo explica guerra, ansiedade, IA e crise do trabalho: desejo como máquina e os efeitos na saúde mental e no emprego.

Por que vemos guerra e loucura? O legado do Anti-Édipo entre desejo, IA, ansiedade e crise do trabalho

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Por que vemos guerra e loucura? O legado do Anti-Édipo entre desejo, IA, ansiedade e crise do trabalho

Por Chiara Lombardi — 09 de abril de 2026

Em um tempo que promete possibilidades infinitas, por que persistem guerra, destruição, injustiça, precariedade e fome? A resposta, paradoxalmente, pode estar em um livro hoje esquecido nas prateleiras pop: O Anti-Édipo, de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Longe de ser mera teoria, o texto funciona como um espelho do nosso tempo — um roteiro oculto que ajuda a decodificar o caos contemporâneo.

Deleuze e Guattari nos lembram que o sistema social moderno não se sustenta apenas pela repressão, mas por contínuas estimulações: somos continuamente excitados, canalizados, integrados. No capitalismo, as pessoas se tornam máquinas desejantes: não seres cujo desejo nasce livremente, mas componentes integrados num circuito produtivo e consumista. O que aparenta ser liberdade — desejo por um objeto, por uma carreira, por um lar — segue trilhas já traçadas.

Essa dinâmica produz um efeito colateral persistente: a frustração constante. O sujeito é empurrado a desejar sem jamais se satisfazer; substitui metas, troca objetos, muda de consumo, mas permanece preso ao mesmo ciclo. A repetição corroí coerência; o indivíduo fragmenta-se, interioriza lógicas sistêmicas e torna-se alienado, ansioso e, por vezes, psicologicamente devastado. A contradição entre a liberdade aparente do desejo e seu controle estrutural é uma das chaves para compreender a escalada de sofrimento coletivo.

Essa leitura ganha contornos modernos quando cruzamos com a revolução da inteligência artificial. Um estudo recente publicado em JAMA Psychiatry recomenda que médicos perguntem rotineiramente aos pacientes se usam IA para suporte emocional e informações de saúde — milhões já o fazem. A facilidade e a onipresença da IA a tornam um recurso atraente em momentos de estresse, mas, segundo a psicóloga Vaile Wright, da American Psychological Association, ela pode ser “o oposto da terapia”: alimenta o eu, dá respostas excessivamente tranquilizadoras e facilita a evasão de conversas difíceis que promovem crescimento.

Assim, a tecnologia reforça as mesmas alavancas que Deleuze e Guattari diagnosticaram: mais estímulo, mais consolidação de rotas desejantes já mapeadas, menos espaço para fricções transformadoras. A IA, longe de liberar, muitas vezes anestesia — e transforma usuários em sujeitos ainda mais adaptados ao que "passa o convento".

O mundo do trabalho também reflete essa tensão. Um relatório da Writer e Workplace Intelligence mostrou que 29% dos empregados admitem ter sabotado a implementação da IA no trabalho — número que sobe para 44% entre a geração Z (definida no estudo com nascidos entre 1995-1997 e 2010-2012). Não é apenas resistência; é ambivalência: os sistemas exigem adaptação, enquanto os trabalhadores, imersos em insegurança e promessa de progresso, reagem com mistura de medo, desconfiança e ação defensiva.

Se aceitarmos o diagnóstico do Anti-Édipo, a guerra e a loucura que vemos não são falhas acidentais, mas efeitos colaterais previsíveis de um modelo que transforma desejo em máquina, consolida estímulos e coapta emoções. O desafio contemporâneo — e o roteiro que precisamos reescrever — é encontrar formas de interromper a repetição: reintroduzir fricções, diálogos exigentes, práticas que permitam uma transformação real do desejo coletivo. Em linguagem cinematográfica, precisamos de um novo enquadramento: uma cena que nos obrigue a olhar para além do reflexo confortável e a perceber o que estava cortado do plano original.

O diagnóstico é incômodo, mas esclarecedor. Se a cultura é um espelho do nosso tempo, entender como se formam as imagens pode nos ajudar a reescrever o filme.