Antonio Amodio estreia com 'La riunione non è finita': farsa sombria sobre o trabalho corporativo

Debut de Antonio Amodio satiriza o horror corporativo em 'La riunione non è finita' (256 Edizioni): curta, ácida e reflexiva sobre o trabalho moderno.

Antonio Amodio estreia com 'La riunione non è finita': farsa sombria sobre o trabalho corporativo

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

Antonio Amodio estreia com 'La riunione non è finita': farsa sombria sobre o trabalho corporativo

Por Chiara Lombardi — Em um país onde o expediente muitas vezes vira um roteiro oculto de pequenas humilhações, surge um livro que funciona como espelho: seco, cortante e com um humor ácido que nos devolve a imagem de um mundo profissional em frangalhos. O debut de Antonio Amodio, La riunione non è finita (256 Edizioni), é um conto longo — quase um romance brevíssimo — que, em menos de 90 páginas, transforma a trivialidade de um encontro corporativo em um cenário de horror grotesco e sátira social.

No núcleo da narrativa está a fictícia companhia de seguros turinesa La Sabauda, onde um diretor e quatro funcionários são convocados para uma reunião que rapidamente se converte em um pesadelo claustrofóbico. O que poderia ser apenas mais um momento de correção interna se converte numa mise-en-scène do capitalismo autoritário: acusações, humilhações e a ameaça de consequências indescritíveis que pairam sobre atos contrários ao “ordem constituída”.

Mas o truque de Amodio é duplo. Mesmo quando o terror beira o absurdo, o autor puxa o fio da comédia — uma comédia à italiana, retemperada com um ácido que lembra corrosão industrial. Os personagens falam em diferentes dialetos; o diretor assume as feições de um polifemo burocrático, um monstro adaptado ao tamanho do pequeno funcionário; e o exterior da sala vira um recesso escuro, povoado por criaturas vingadoras que remetam ao imaginário dos filmes B de horror norte-americanos.

Leitoras e leitores se vêem continuamente compelidos a simpatizar com os “malvados”: quanto mais mesquinhos se mostram os sujeitos, mais o universo narrativo lhes devolve uma vileza superior. A tensão entre fantástico e irônico permite que a credibilidade oscilante seja sempre ancorada por diálogos mordazes e observações sociais certeiras.

As referências literárias são claras: há ecos do primeiro Ammaniti — mas vistos à distância e sem intimidação — e uma piscadela à poética do Fantozzi, esse arquétipo do pequeno trabalhador que tenta, em vão, escapar ao maquinismo da grande empresa. Amodio, formado em História do Cinema Norte-americano e declarado admirador de David Mamet, usa a página como palco, compondo uma farsa com arcos dramáticos que lembram o melhor do teatro de texto enxuto.

Além disso, o autor tem afiado seu gosto e experiência ao colaborar nos roteiros de Wonderland (Rai4) — um indicativo de que seu olhar crítico se expande do curto para possibilidades mais longas e densas. Ainda é cedo para prever se Amodio marcará a paisagem editorial italiana com obras de maior fôlego, mas este estreante deixou, sem dúvida, um risco visível na lataria do carro com que todos vamos ao trabalho: um arranhão que obriga a olhar para dentro do habitáculo.

La riunione non è finita é, portanto, um pequeno livro que funciona como um espelho cortante do nosso tempo: divertido, incômodo e perspicaz — um convite a rir e a refletir sobre o tecido social que normaliza a violência rotineira do trabalho.