Arisa se reinventa: 'Foto Mosse' revela a cantora que quer ser também autora — e está cansada de ser a 'mãe' dos seus homens
Arisa lança Foto mosse: voz, autoria e feminilidade renovada; ela diz estar cansada de ser a 'mãe' dos homens e quer ser reconhecida como cantautora.
RESUMO ✦
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Arisa se reinventa: 'Foto Mosse' revela a cantora que quer ser também autora — e está cansada de ser a 'mãe' dos seus homens
Por Chiara Lombardi — Em um momento em que a imagem muitas vezes vence a narrativa, Arisa prefere escrever o seu próprio roteiro. Com o novo álbum Foto mosse, que chega às lojas na sexta-feira 17, a artista italiana dá um passo decisivo para além da caricatura que muitos acostumaram a ver: os óculos exagerados, a franja marcada, a persona pronta para o close. "Quando me dizem 'você cantou bem... como sempre' isso me satisfaz até certo ponto. Não quero ser apenas aquela que interpreta os sentimentos alheios: tenho os meus", declara ela, com a honestidade seca de quem já reescreveu várias vezes a própria imagem.
Este disco é, antes de tudo, um gesto autoral. Dez das treze faixas trazem a assinatura de Arisa, em parcerias com nomes como Dimartino, Dente e Giuseppe Anastasi, e a produção ficou a cargo das Mamakass. Não é apenas um trabalho vocal — é uma tentativa consciente de ser reconhecida como cantautora. "Sinto a necessidade de me manifestar; se não, qual o sentido de ser artista? Não quero ostentar só uma bela voz, quero contar minha vida e apontar um caminho", explica.
Há também um pequeno aceno às possibilidades eletrônicas: ela não exclui o uso do autotune no futuro — "um recurso que tem um mordente sonoro que me atrai" —, mas deseja que seja uma opção estética, não uma muleta. Essa postura traduz o desejo de controlar o seu repertório: a voz segue sendo seu instrumento principal, mas a palavra escrita ocupa agora um lugar de protagonismo.
Foto mosse percorre labirintos amorosos — do tóxico ao universal, do físico ao incompleto, do primeiro encontro ao término. Ainda assim, Arisa sublinha que as canções tratam mais de identidade do que de enredos românticos. "Quero deixar um testemunho real de vida, como um tapinha no ombro para quem se sente fora do que está na moda", diz. É um convite ao leitor-ouvinte para ver nessas músicas um espelho do próprio tempo: a dor normalizada, a busca por felicidade consciente, o aprender a segurar os momentos bons.
O Festival de Sanremo, onde alcançou o quarto lugar, foi para ela uma espécie de reconciliação pública. "Lá me senti eu em todos os momentos. E depois do Festival, para além das classificações, veio um sentimento de família que eu não sentia antes". Mesmo no brilho do palco, Arisa não escapou das sombras: já recebeu críticas até pelo sobrenome, lembrando que a exposição é sempre ambivalente.
Nas imagens que acompanham o álbum e nas fotos postadas, nota-se uma Arisa mais confortável com a própria feminilidade. "Me liberei de muitas coisas — antes eu 'comia' de forma desregrada e isso pesava no corpo e no ânimo. Hoje me alimento do essencial. Nas fotos me sinto autorizada a ser sexy: tiro de dentro uma feminilidade da qual me envergonho na vida cotidiana", confessa. Essa liberdade estética funciona como um reframe da realidade: a artista que antes se escondia, agora se exibe com um propósito.
Talvez a frase mais direta do disco e da entrevista seja sobre um papel que ela rejeita: o de 'mãe' dos próprios parceiros. "Tenho um lado materno forte. Mas quando você vira mãe de um homem, acaba impedindo que ele cresça" — uma observação que desmonta dinâmicas de cuidado que confundem afeto com tutoria. No roteiro oculto das relações afetivas, Arisa escolhe escrever finalizações mais honestas.
Em sua trajetória, a cantora compõe um mosaico de autoafirmação: voz intacta, autoria reconhecida, imagens que a libertam e uma crítica à normalização do sofrimento. Foto mosse aparece como um exercício de memória e reinvenção — não apenas um álbum, mas um espelho sutil do nosso tempo.