Arte como ponte: Mons. Edoardo Canetta e o debate sobre liberdade artística na Bienal de Veneza
Mons. Edoardo Canetta debate a liberdade artística na Bienal de Veneza e a transformação do Santuário de São Giuseppe em polo cultural internacional.
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Arte como ponte: Mons. Edoardo Canetta e o debate sobre liberdade artística na Bienal de Veneza
Por Chiara Lombardi — Em tempos em que o design do palco público é tão político quanto um roteiro de época, a voz de Mons. Edoardo Canetta surge como um convite à reflexão. Sacerdote católico e reitor do Santuário de São Giuseppe em Milão, Canetta também é secretário acadêmico da Classe Asiática na Veneranda Biblioteca Ambrosiana. Com duas décadas ensinando língua italiana e cultura europeia na Universidade Nacional Euroasiática e no Instituto de Diplomacia de Astana, no Cazaquistão, e agraciado em 2013 pelo Presidente Giorgio Napolitano com a Ordem da Estrela da Itália (no grau de oficial), ele articula uma visão que vê na arte um poderoso ponte — intelectual, social e histórico.
Recentemente, diante das controvérsias em torno da presença do Pavilhão Russo na Bienal de Veneza, Canetta foi direto ao ponto: a questão extrapola a mera representação simbólica. “Quando pavilhões são diretamente geridos por Estados, abre-se uma lacuna entre a liberdade curatorial e os interesses nacionais”, observa. Na sua leitura, esse arranjo institucional ameaça a autonomia das instituições culturais e empurra a arte para zonas de influência que nada têm a ver com o seu valor intrínseco.
O gesto de escolher quem expor é, para Canetta, um ato ético. Ele lembra episódios históricos que colocam a arte no centro dos dilemas morais: a memória da forma como, em 25 de abril de 1945, Gianni Rodari salvou a vida de Mario Sironi, em nome da arte, constitui um exemplo emblemático de solidariedade cultural que deveria orientar decisões contemporâneas. “A seleção deveria contemplar também artistas censurados em seus próprios países”, afirma, apontando que a verdadeira liberdade de expressão artística inclui proteger vozes dissidentes.
Canetta denuncia ainda uma dependência estrutural: instituições culturais frequentemente se veem condicionadas por estados e por organismos internacionais. Segundo ele, a pressão — inclusive de instâncias como a União Europeia — sobre o financiamento e sobre decisões curatoriais revela um jogo de poder que ultrapassa fronteiras nacionais. “Quando se ameaça retirar fundos condicionando escolhas artísticas, negocia-se mais do que recursos; negocia-se o próprio sentido público da cultura”, diz.
O debate, ressalta Canetta, não se limita às artes plásticas. Ele traça um paralelo com o mundo do esporte: a exclusão de federações esportivas da Rússia e da Bielorrússia de competições internacionais, e as regras que permitem apenas a participação de atletas independentes, geraram distorções técnicas e simbólicas. “A ausência oficial de atletas russos em eventos como as Olimpíadas empobreceu tecnicamente modalidades como o patinagem artística”, comenta, numa observação que mistura afeto pela disciplina e análise crítica.
Em Milão, à frente do Santuário de São Giuseppe, Canetta não se limita às reflexões: transforma o espaço num polo de música antiga e autoral, de alcance internacional. É aí que sua visão ganha forma prática — a arte como ferramenta de encontro, cura e diálogo. O santuário vira um palco onde tradição e contemporaneidade se encontram, um verdadeiro “reframe” da sacralidade cultural.
Como observadora do zeitgeist, vejo na posição de Canetta um convite a repensar o papel das instituições culturais: não apenas vitrines de prestígio, mas espaços de responsabilidade pública, capazes de abrigar vozes contraditórias sem se submeter a lógicas de poder. A liberdade de expressão artística, conclui ele, precisa ser protegida por mecanismos que preservem a autonomia criativa frente às pressões políticas e econômicas — um roteiro que honra a memória, protege o dissenso e sustenta a arte como espelho do nosso tempo.
Mais do que uma polêmica sobre um pavilhão, este debate nos coloca diante de uma pergunta antiga e renovada: que tipo de cena pública queremos construir? Mons. Canetta nos lembra que a arte pode ser esse elo, quando tratada com coragem, crítica e responsabilidade — o verdadeiro teatro onde se encenam as transformações sociais.