As verdadeiras raízes de Assassin's Creed: de Alamut ao Prince of Persia

Como Alamut e Prince of Persia moldaram Assassin's Creed: do lema à transformação do 'Salto da Fé'.

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As verdadeiras raízes de Assassin's Creed: de Alamut ao Prince of Persia

Por Chiara Lombardi — Quando pensamos nas fontes de inspiração de Assassin's Creed, é comum que o olhar se volte para os romances publicados ao longo da franquia ou para os livros que ampliaram seu universo ficcional. É uma leitura legítima, mas que corre o risco de perder o mapa de origem: para compreender a gênese de Assassin's Creed é preciso recuar mais no tempo, até encontrar uma confluência entre literatura e videogame.

As raízes da série brotam do encontro entre o romance do século XX Alamut (1936), de Vladimir Bartol, e um clássico do entretenimento eletrônico, Prince of Persia (1989). Dessa fusão — narrativa e lúdica — a Ubisoft extrai a identidade que transformaria a franquia em um verdadeiro espelho do nosso tempo, um roteiro oculto que mistura política, mitologia e técnica.

No cerne dessa herança está o lema que atravessa toda a saga: “Nada é verdade, tudo é permitido”. A frase, famosa entre os fãs, não é invenção do estúdio; vem de Alamut, que por sua vez reinterpreta a figura histórica de Hasan-i Sabbah e a ordem dos assassinos. Mas a influência não se esgota numa citação — ela organiza simbolicamente o jogo.

No romance, a fortaleza de Alamut é palco de um poder que manipula fiéis por meio de ilusões e promessas de paraísos artificiais. Na transposição de Assassin's Creed, essa mesma fortaleza renasce como Masyaf, mantendo sua função: lugar isolado, lugar de origem de uma confraria capaz de alterar rumos históricos. É como se a narrativa literária emprestasse ao videogame seu cenário mítico, enquanto o jogo traduz esse mito em experiência corporal.

As analogias prosseguem nas relações pessoais. Em Alamut, Ibn Tahir representa o fedayn que se deixa seduzir pela construção de sentido do Velho da Montanha. Em contrapartida, no primeiro jogo, Altaïr percorre um arco inverso: desvela o engodo, rompe com a obediência cega e chega a matar Al Mualim — gesto que converte a submissão em emancipação. A Ubisoft reutiliza a estrutura narrativa, mas reprograma seu desfecho, mudando a moral do conto.

Um dos paralelos mais sugestivos é o do célebre Salto da Fé. Bartol descreve fedayn que se atiram no vazio para provar sua devoção absoluta; é uma imagem de sacrifício manipulatório. No jogo, o salto é reapresentado como uma coreografia de confiança e técnica: aos olhos dos adversários parece mortal, mas os assassinos sabem que há feno, estruturas ou pontos seguros para receber o corpo. A simbologia é invertida — de demonstração de subjugação a símbolo de treino, autonomia e perícia.

Além de Alamut, o legado do Prince of Persia é palpável na gramática do movimento: a fluidez dos pulos, a ênfase nas coberturas de telhado e o prazer cinestésico de atravessar paisagens urbanas criam a linguagem de jogabilidade que tornar-se-ia marca registrada de Assassin's Creed. Se Bartol deu o quadro moral e filosófico, o título de 1989 forneceu o léxico do corpo em jogo — a coreografia acrobática que traduz a ideia de liberdade praticada.

Olhar para essas fontes não é um exercício de arqueologia trivial: é perceber como uma obra contemporânea combina heranças culturais distintas para narrar, em imagens e mecânicas, tensões que nos atravessam. Assassin's Creed não nasce apenas de romances contemporâneos ou de revisões históricas: nasce do entrelaçamento entre a tradição literária de Alamut e a estética lúdica de Prince of Persia, um casamento de ideias que transformou um mote filosófico em performance digital.

Na era dos universos transmídia, essa genealogia nos ensina a ler mais atentamente as superfícies brilhantes dos blockbusters: por trás de cada salto sensacional, há um roteiro oculto, um eco cultural que nos convoca a interpretar — e a questionar — o que a liberdade significa no palco tecnológico do século XXI.